Grace and Frankie é do balacobaco

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(Grace and Frankie, Netflix, 2015)
Eu conheci Grace and Frankie em 2016, pouco antes das série lançar sua segunda temporada no Netflix. Os amigos, como sempre, vieram surtando e dizendo que eu tinha que ver e eu aceitei a sugestão porque ela cumpria meus dois requisitos pra aceitar uma série nova na minha vida: tinha poucos episódios e esses episódios tinham pouco tempo eu sou ridícula eu sei. Trinta e nove episódios depois, estou aqui, escrevendo esse post com a intenção de arrebanhar mais gente pro culto a essas duas mulheres incríveis.
Toda vez que sugiro a série pra alguém e a pessoa me pergunta "é sobre o quê?", me pego repetindo a sinopse do primeiro episódio: Grace, mulher de negócios do ramo cosmético e Frankie, artista super esotérica, são casadas com advogados sócios de uma empresa. As duas, que nunca se gostaram, estão esperando os maridos pra um jantar importante, imaginando que se trata do anúncio da aposentadoria de ambos; mas Robert e Sol, seus respectivos esposos, estão ali pra contar que são homossexuais e pretendem se casar. O barraco está armado, a casa cai, e a primeira temporada (são três até o momento) se desenrola principalmente ao redor dessa bomba e como lidar com os cacos da explosão.
Mas Grace and Frankie não é apenas uma série sobre relacionamentos gays e mulheres de 70 anos abandonadas pelos esposos.

A expectativa de vida da humanidade aumenta a cada ano, a ponto de fazer a gente se preocupar com a perspectiva de trabalhar até os 80; e enquanto cada temporada de estréias traz pras telas gente impossivelmente linda e bombada e discute o triste drama da geração millenial de todas as formas possíveis, Jane Fonda e Lily Tomlin protagonizam uma história contada pela ótica da velhice, um lugar onde todo mundo pretende chegar mas ainda não teve tempo de pensar como será. Sabemos que a juventude é o que vende por aí, sabemos também que uma hora ela acaba, mas ainda não sabemos exatamente o que fazer quando essa hora chega, e Grace, Frankie, Robert e Sol nos dão pequenas lições a respeito disso, mostrando que mesmo quem é adulto há décadas ainda garante seus momentos de fragilidade e insegurança; que a vida aparentemente nunca estaciona num lindo patamar de estabilidade; e que virar a curva dos 70 anos está bem longe de significar a morte (a menos, é claro, que você queira).
Frankie é a hippie sempre avoada e rainha do nonsense e Grace, a mulher rica e esnobe de coração de pedra. A série podia ser uma comédia cheia de absurdos e humor estereotipado - e esses momentos até existem, devidamente intercalados com cenas de uma profundidade enorme por parte das protagonistas e seus ex-maridos. Os filhos dos casais acabam sendo o alívio cômico na maioria dos momentos (e vocês vão amar a Brianna), enquanto o fio principal da série se desenrola falando da fragilidade do corpo, de morte e doenças, de aposentadoria e novos rumos profissionais, de divórcio, casamento, amor, solidão, namoro, homofobia e até a sexualidade feminina na terceira idade. É uma história comum (sobre uma família um pouco diferente, é verdade), com situações e sentimentos impossíveis de não se relacionar, porque todo mundo ali, tal qual nós, está lidando com A Vida e suas presepadas e sofrendo muito no processo. Tem muita raiva, inveja, sentimentos confusos demais e uma boa dose de tóchicos pra anestesiar a realidade, mas também temos pessoas de verdade tomando decisões, fazendo as coisas acontecerem e tomando a rédea das próprias vidas o tempo todo. O episódio piloto, em que Robert e Sol decidem sair do armário e se casar depois de tantos anos pode fazer a gente se questionar: mas isso valia mesmo a pena? Depois de décadas de casamento? E a grande questão é que sim, vale. Fazer nossos desejos acontecerem definitivamente vale a pena, acontecendo aos 25 anos ou aos 70.

Frankie e Grace são ótimas de se ver na tela, juntas. As duas se apresentam pra gente como mulheres com nada em comum - até que, de repente, elas passam a ter coisas demais numa tacada só. Se isso serve de plano de fundo pra uma porção de conflitos pra fomentar a história, a gente acompanha na mesma medida o surgimento de uma das parcerias mais bonitas que já vi na ficção, um exemplo fantástico de sororidade. Ambas são mulheres fortes e admiráveis, cada uma com a sua personalidade e história, mas com o mesmo espírito criativo e corajoso, uma capacidade de ser gentil quando necessário e cuidar uma da outra. Grace e Frankie podiam ser eu e você. Eu espero que sejam, aliás.

Gente Talentosa: Chloe Giordano

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No final do ano passado, eu cismei que queria aprender a bordar. 
Artesanato sempre foi meio que a minha praia: nunca tive muita habilidade, mas desde criança já admirava imensamente todas as manifestações artísticas de quem manjava dos paranauê. Transformar sentimentos em obras visíveis e palpáveis é uma coisa que me fascina demais, e foi por isso que, depois de namorar e salvar milhões de imagens do Pinterest, resolvi começar a dar meus primeiros pontinhos num tecido. O perfil da Chloe chegou até mim numa dessas buscas sem fim por inspiração, e eu fiquei doida de amores: já falei pra vocês que o Pinterest é cheio de coisas maravilhosas, mas os bordados dela tem características únicas e lindas demais.

Chloe Giordano mora em Oxford e estudou Ilustração, e foi no último ano da graduação que ela começou a se interessar por trabalhos com têxteis e decidiu experimentar aquilo. Ela usa na maioria dos bordados o mesmo ponto simples e linha de costura, que é muito mais fina do que a linha normal de bordado; e cada figura é formada por uma infinidade de pontos curtinhos, criando um trabalho com uma delicadeza ímpar.
A maioria das temáticas dos bordados é silvestre, complementada por florzinhas em degradê e folhagens tão bem-feitas que quase parecem reais. Muitos também são feitos em dimensões minúsculas, o que me deixa ainda mais fascinada: um trabalho maior exige muito mais linha e pontos, mas dar tantos pontinhos milimétricos e transformar isso em arte é uma façanha que ainda não estou nem perto de conseguir. 
O design dos bordados também é feito por ela, e tem muitos rascunhos dos animaizinhos no seu Instagram. Já disse por aqui que sou frustrada por não saber desenhar, né? Um dos meus sonhos é saber desenhar como ela, poder fazer uma arte realista e tão cheia de detalhes;e fazer isso usando materiais tão diferentes quanto tecido e linha me deixa muito maravilhada. Ela é ilustradora em teoria, bordadeira na prática e eu não sei se é possível definir esses trabalhos em apenas uma dessas duas esferas de arte - como já falei, é algo incomparável e muito diferente da maioria das coisas que já vi.
Na lojinha do Etsy ela vende cartões com impressão das artes e alguns dos bordados originais, como os broches de mariposinha que coloquei ali em cima. Pelo que eu percebi, não existe arte em estoque: são peças únicas e originais, num lote único, e quando acabar, acabou. O preço não é muito amigo, mas honestamente, eu não sou capaz de dizer quanto é que isso vale ou deveria valer - só sei que é suficiente pra me fazer babar por uns bons minutos a fio enquanto olho pra mesma imagem.

Chloe já fez trabalhos pra Penguin e pra Vintage Books, e algumas das suas artes estampam capas de livros tão bonitos quanto a coleção Penguin Threads, da qual eu já falei um pouquinho aqui. Vocês acham que eu to querendo? To querendo. Vocês acham que eu quero que ela borde/ilustre a história da minha vida? Que eu quero que ela cubra minha cara com essa arte maravilhosa? POIS SIM.
Pra quem ficou curioso, esse vídeo (em inglês) traz um pouco mais de informações sobre ela e dá pra ver ela dando uns pontinhos ao vivo:
Chloe Giordano — Freehand Embroidery from AdamPellinDeeve on Vimeo.

Todas as fotos do post são da Chloe, e os links pro trabalho dela são esses: site - loja - instagram - facebook

Repositório de ninharias

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Caso você seja cliente desse estabelecimento há algum tempo, já deve ter me ouvido dizer que eu adoro responder memes, de todas as formas, temas e tamanhos (rumores de que tem um de 13 páginas no meu computador). Acho que esse gosto começou quando eu tinha uns oito anos e passava as tardes dos sábados na casa da minha avó, folheando as Elles e Vogues da minha tia e lendo com muita atenção as entrevistas das it girls da época, que sempre abriam um espaço pras perguntas mais clichês da história ('parte preferida do seu corpo?' 'qual cd não sai do seu discman?'), a única maneira de conhecer o que alguém pensava numa época antes de blogs e instagram.
Demorou um bom tempo pra eu perceber que ninguém além de mim se interessaria pela cor do meu pijama ou quem eu levaria pra uma ilha deserta (tirando aqueles cadernos de perguntas maravilhosos), até o dia mágico em que eu me tornei rainha soberana de uma url capenga no finado Weblogger e descobri que ali eu tinha todo o aval do mundo pra contar os detalhezinhos mais desinteressantes da minha vida, pra quem quisesse ler (ou não). Continuamos fazendo isso há onze anos, e no fundo, por mais que eu faça um post pretensioso aqui e ali, esse blog ainda é um repositório de ninharias de primeira; e esse post se propõe a fazer isso com louvor: abraçando com força o overshare e compartilhando uma série de fatos insignificantes e aleatórios sobre moi. #rainha #soberana
⋆ Quando eu tinha uns nove anos, quebrei uma porta de vidro brincando de pega-pega no apartamento de uma colega de escola - correndo sem ver pra onde e me arrebentando contra a porta da sacada. Fiquei com medo de altura desde então. ⋆

⋆ As pessoas da internet (excetuando as do twitter, risos) não sabem, mas eu falo muito palavrão e com muita frequência. É bem feio, mas dá um alívio muito grande, MIDESGUPI. ⋆

⋆ Eu nunca tive catapora na vida - e consequentemente, hoje em dia MORRO de medo de chegar perto de uma criança doente. ⋆

⋆ Tenho uma dificuldade muito grande com joguinhos que exigem reflexos rápidos, em que eu preciso derrotar inimigos e/ou me esquivar pra não ser derrotada por eles (isso inclui Mario, por exemplo). Em compensação, eu sou muito boa com puzzles e adoro jogos de turno. ⋆

⋆ Ainda falando de jogos: eu sou muito competitiva e ODEIO perder qualquer coisa. Até disfarço bem, mas fico me doendo depois. ⋆

⋆ Minha maior habilidade talvez seja memorizar/reproduzir coisas. Daí vem minha facilidade pra decorar letras de música e nomes, saber as 196 nações soberanas do globo e ~desenhar~ (que não sei fazer de cabeça, mas copio modelos muito bem). ⋆

⋆ Nasci e cresci na Roça, mas nunca andei a cavalo na vida. Aliás, eu nem gosto muito de cavalo (mas AMO VACAS). ⋆

⋆ Na adolescência, eu cismei de descolorir umas mechas de cabelo pra pintar de colorido com papel crepom (eu morava na Roça e o Youtube nem existia ainda pra me informar a respeito, BEAR WITH ME). O resultado foi claramente desfavorável e fiquei com uns ~cabelos brancos~ por um bom tempo. ⋆

⋆ Eu amo comprar coisas, mas também sou extremamente mão-de-vaca quando algo parece caro demais HEHEHEH.  ⋆

⋆ Nunca tive carro em casa, então minha disposição pra andar longas distâncias à pé é bem maior do que a da maioria das pessoas. ⋆

⋆ Segundo a última visita que fiz ao dentista, meus dentes são ótimos (que elogio maravilhoso, némesmo? Fica a dica: chegar na balada e dizer pro boy/girl de sua escolha OLAR, SEUS DENTES SÃO ÓTIMOS) ⋆

⋆ Eu aprendi a ler com uns quatro anos de idade e o primeiro livro que ganhei foi A Cigarra e a Formiga (que aliás, ainda existe aqui). Também ganhava vários prêmios de leitura na época da escola por pegar quantidades absurdas de livros na biblioteca. ⋆

⋆ Durante a adolescência, eu e minhas melhores amigas éramos sócias de um clube incrível que a gente frequentava adoidado sempre que podia. Hoje em dia, eu detesto piscina. Vai entender. ⋆

⋆ Eu falo muito sozinha e sou daquelas pessoas que briga com a televisão (!!!!!) sempre quando tá assistindo algo e se irrita com algum personagem .⋆

⋆ Se um dia eu tiver filhos, os nomes eleitos são Valentina ou Marco Aurélio. ⋆

⋆ Demorei 22 anos pra conhecer o litoral!!! ⋆

⋆ Eu tenho uma coleção muito respeitável de gibis da Mônica e da Disney, que gosto muito e zelo loucamente pra que nenhuma criança enxerida e descuidada ponha as mãos. ⋆

⋆ Não sei assoviar até hoje e sou muito ruim contando piadas (sempre entrego o final). ⋆

⋆ Eu comecei a escrever fanfics em 2005, e estou desde 2006 até hoje inventando uma certa história e dando trela pros personagens dela. Um dia eu juro que sento e escrevo direitinho (risos infinitos).  ⋆
 ✨✨

rouBADA

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(como eu não pensei nesse título logo de cara???? eu não sei)

Primeiro teve o BEDA, que foi um sucesso sem precedentes na história desse website. Depois, veio o Blogmas, que foi um fiasco; e depois vieram os últimos três meses nesse blog, no qual ele respirou com a ajuda de aparelhos (e possivelmente umas boas rezas) pra sobreviver até aqui. Em 90 dias, tivemos dois míseros posts, possivelmente a maior seca do Beyond Cloud Nine. Nem aquele post típico de explicações pro sumiço eu fiz, porque a verdade é que nem vi o primeiro trimestre de 2017 passar. Já faz 84 anos que tenho dito que não está fácil.
A possibilidade de que alguém aí, do outro lado do computador, esteja aguardando aquele post derradeiro onde eu venho aqui pra abaixar as portas desse estabelecimento virtual com uma meia dúzia de tchaus e muitas desculpas sem-vergonha pra justificar o desânimo com a blogagem são altas, eu diria. Em vez disso, eu vim aqui pra anunciar mais uma cilada bloguística, obviamente agarrada nas mãos das ciladetes Ana, Mia e Michas (Tati não quis embarcar no barquinho mas está dando apoio moral como a amizade exige, heh) - porque nenhuma de nós tem medo do perigo de queimar a cara anunciando planos mirabolantes desde que devidamente amparada por pessoas igualmente lunáticas.
Ouço alguém comemorando? RISOS

Decidi por conta própria chamar o mês de abril por aqui de BADA, um acrônimo bobo que pode significar 'blog almost daily in april', ou 'parece o BEDA mas não é'. Meu plano é postar dia sim, dia não (e o que me salva de repetir o fiasco do Blogmas é que as #pautas já estão definidas e algumas até meio escritas, heh), e continuar falando as trivialidades e abobrinhas que vocês já sabem que encontram aqui. Por mais que a vida esteja doida (e sabemos que a tendência é que ela fique mais maluca a cada ano que passa), revirar os arquivos desse blog e ler os memes, os desabafos e rever as fotografias me conecta com coisas gostosas demais pra que eu sequer pense em parar de escrever. Depois de três meses tão áridos, eu nem sei se alguém ainda continua por aqui pra se conectar com o que eu falo, mas essa conexão com as pessoas também é legal demais pra eu desistir dela. Blogar faz um sentido tremendo pra mim, ainda que os posts sem pé nem cabeça pareçam significar o contrário.
A coisa mais valiosa que aprendi com o BEDA foi que a gente precisa abrir um espacinho na nossa vida pra fazer aquilo que a gente quer; e é isso que estou tentando fazer mais uma vez. A chance de ~falhar~ sempre está aí, de me empolgar, gerar mil expectativas e deixar o marasmo da rotina e a correria dos dias me tragar de novo por um tempo(e me sentir culpada, egoísta e uma péssima blogueira), mas acho que eu vou continuar voltando com o rabinho entre as pernas, com ou sem projetos rocambolescos, até o Google decidir que o Blogger é um péssimo investimento e me despejar. Enquanto os últimos tempos foram meio decadentes pra blogosfera e tantos blogs de anos foram apagados, reformulados, se transformaram em newsletters ou simplesmente estão em hiatus eternos, eu voltei pra dizer que essa url continua por aqui em resistência, falando sobre tudo sem pretensão nenhuma. Espero que cês fiquem felizes em saber ¯\_(ツ)_/¯

(Caso você esteja aí, lendo isso, é sua hora de interceder por mim e sugerir temas  matar a curiosidade! Tá muito permitido mandar perguntas, sugestões de memes, reclamações ou qualquer outra coisa. VAMOS CONVERSAR EHEHEH)

E LÁ VAMOS NÓS!!!

Atrás da cortina

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Já faz quatro anos que toda semana, quase religiosamente, pego um ônibus, boto meus fones de ouvido durante uma hora de viagem e desembarco a algumas quadras do consultório da minha psicóloga. A tabela de horários de ônibus sempre me obriga a chegar 40 minutos antes, que passo sozinha na sala de espera, ouvindo música, twittando a respeito das misérias do dia ou lendo; até que ela chegue (sempre pontualmente) pra me atender. Há pouco menos de um ano, ela comprou um divã novo: roxo, gigante, e sugeriu que eu passasse a me sentar ali.
Se eu contasse quanto tempo passei acomodada em divãs menos confortáveis, poltronas e até uma cadeira dura no ambulatório da faculdade, seriam mais de dez anos. Pelas minhas contas, é quase metade da minha vida sendo apresentada em relatos semanais de cinquenta minutos, quase a totalidade deles seguindo a regra do "fale o que você sentir vontade". Mesmo na época de adolescente, nunca tive muita dificuldade em cumprir com esse combinado; em acreditar na pessoa da cadeira da frente dizendo que aquele era o espaço em que eu tinha pra ser quem quisesse. Hoje em dia eu faço isso com maestria, quase sempre começando com "então..." e partindo pra uma sequência incessante de palavras, frenética o bastante pra talvez me dar um lugar no elenco de Gilmore Girls.

Deitada no divã roxo e descalça (um hábito relativamente recente, que começou depois de ouvir que eu "precisava me apropriar do espaço que ela oferecia"), eu começo a falar. Algumas semanas são boas, outras são horríveis; alguns dias chego com um discurso pronto e cheio de insights no qual pensei durante toda a semana e em outros, nada parece importante o bastante pra ser dito. Eu falo mesmo sem o fazer,  nos dias em que me sinto frágil demais e não consigo abrir minha boca por dez minutos seguidos; e a terapeuta entende.
Ela não faz conversa fiada pra amenizar o silêncio esquisito. Não faz cara feia pros meus palavrões, nem se assusta quando a raiva que eu sinto é tanta que me faz gritar (e às vezes, arremessar umas coisas pelo ar). Ela parece serena sempre, bem-humorada mesmo nas piores horas. A terapeuta ouve as piores partes de mim sobre as quais eu consigo falar, e se elas me apavoram a ponto de a caixa de lenços ter alguma utilidade; do outro lado a atitude dela me faz sentir que aquilo ainda não é tão ruim.
Ela também faz terapia, aliás. Eu dou graças a Deus por isso.
As razões que eu poderia dar pra um processo terapêutico tão longo são várias; desde o trabalho, passando pelo "se conhecer melhor" até uma lista detalhada de cada desgraçamento de cabeça que eu ainda tenho. A verdade é que eu faço terapia porque eu posso, porque esse é um dos 5 melhores investimentos pro meu dinheiro - e se algumas dezenas de milhares de reais viagens pra Europa ficaram nas mãos da minha terapeuta, eu me consolo sabendo que a versão de mim que tivesse esse dinheiro ainda não teria capacidade psíquica pra fazer as malas e subir num avião. A terapia é onde eu posso ser a pessoa mais honesta comigo mesma, mesmo quando isso dói demais; é um ninho onde a terapeuta me empresta a calma dela pra eu chocar minhas próprias soluções.
Não é fácil, muito menos prático e rápido, como outras fórmulas de bem-estar dizem ser. Não é incomum que os cinquenta minutos às vezes pareçam 25 e eu passe semanas presa num assunto - ou meses ao redor de uma mesma questão tema, pra resolvê-la e descobrir que a camada que estava por baixo é mil vezes pior. Há dias em que minha terapeuta fala com todas as letras verdades odiosas e eu saio quase sempre de óculos escuros pra esconder o choro, que às vezes se arrasta pelo trajeto do ônibus, enquanto meu iPod no último volume repete The Smiths ou a playlist pra anestesiar aquele vazio horroroso que vem depois da choradeira. Tem manhãs que me arrasto pra fora da cama me questionando porque é que eu continuo fazendo aquilo, quando podia ter mais umas horas de sono ao invés de passar horas infinitas no transporte coletivo, mas costuma ser nesses dias monótonos que o inesperado acontece e eu tenho insights maravilhosos que jogam um facho de luz nos meus pensamentos sempre tão confusos e tudo parece fazer sentido - em caps lock, com direito a muitos pontos de exclamação.
(É óbvio que questões ainda maiores vão aparecer depois, mas isso é outra história, risos.)
São dias como esses em que eu consigo ter uma visão de relance do que é que existe por trás da cortina imaginária que existe na minha mente pra manter meus mistérios longe dos olhos, e só o esforço conjunto meu e da terapeuta consegue mover: coisas terríveis, medos inomináveis, pessoas do passado que eu jurava que tinha superado mas ainda estão por ali em algum lugar, me assombrando e fazendo soar o alarme de emergência que às vezes dispara. Mas é por ali que eu consigo ver também uma versão melhor de mim: uma versão mais corajosa, mais gentil consigo mesma e que não tem mais medo de dizer que odiou o filme que todo mundo amou ou de assumir que adora bandinhas adolescentes; uma versão que pôde olhar pra tudo de mais assustador que há dentro de mim e não entrou em pânico. É uma versão de mim com quem eu sei que adoraria conversar e que sabe que força e vulnerabilidade coexistem o tempo todo; alguém que é capaz de pedir ajuda sem medo e que é capaz de se virar sozinha. Eu faço terapia porque eu posso querer olhar por detrás dessa bendita cortina, e espero que um dia todo mundo possa também.


PS: Sim, eu estou voltando depois de um hiatus sem a menor justificativa, na maior cara de pau. NÃO DESISTAM DE MIM POR FAVOR