Minha adolescência formou em mim a auto-imagem de uma menina feia. Parte por culpa de uma genética que não era um primor, parte por conta de eu nunca ter tido facilidade pra entender o mundo da maquiagem, eu nunca chamei a atenção de ninguém pela boa aparência. Por um bom tempo isso me incomodou, até que em um dado momento eu comecei a aceitar isso como uma parte de mim. Ok, eu podia ser feia, mas eu tinha amigas. Eu era feia, mas eu era engraçada. Minha aparência era tosca, mas eu era inteligente. Eu era feia, e... foda-se.

Não vou mentir: eu me preocupo com a minha aparência ainda, claro. Acho, inclusive, bastante saudável que as pessoas tenham essa preocupação - fazer um penteado elaborado, poder usar uma superprodução de maquiagem no dia de um evento importante, passar um batom colorido pra alegrar um dia meio cinza e levantar o astral (ou passar rímel, delineador, blush e sombra azul além do batom, se é isso que você gosta). Mas gostar da nossa aparência com nossos defeitinhos corrigidos é fácil - embora eu goste bastante da minha versão com menos olheiras, pele perfeita e olhos destacados, também me dá uma certa felicidade olhar pra minha cara-de-todos-os-dias no espelho.
Uns meses atrás, fui pra praia pela primeira vez (!!!) - meu ilustre namorado se mudou pro RJ e quis porque quis me levar pra pisar na areia e imergir em água salgada. Tiramos algumas fotos e ele postou no Facebook, pra família ver, uma muito ~engraçadinha~ onde a criatura que nunca tinha visto o mar está com o cabelo molhado e embaraçado e a cara lavada. Mesmo meio desconfortável de ver minhas olheiras terríveis expostas pro mundo, achei bonitinho e deixei a foto lá, sem drama - um retrato muito real da nossa tarde feliz passeando de barco e de mim explorando o litoral.
Aí esses dias me dei conta que eu estava sendo precursora do desafio #stopthebeautymadness antes mesmo de ele começar.

Eu acho a ideia por trás desse desafio simplesmente excelente. Além da grande imposição da sociedade pra que as mulheres sustentem padrões de beleza quase surreais pra boa parte da população, o que está por trás de uma infinidade de problemas de saúde e distúrbios psicológicos, eu acho que ultimamente, com a nova era dos blogs e do instagram, estamos ainda mais cercadas por recortes de vidas perfeitas e moças bonitas que meio que exercem ainda mais pressão pra que nós acompanhemos esse fluxo de beleza constante - só que essa pressão não vem mais das celebridades de Hollywood e das passarelas, mas de gente normal. Com todo mundo sendo lindo e tendo uma vida perfeita, devidamente corrigida por filtros e meticulosamente selecionada depois de uma sessão de selfies, fica difícil tolerar que alguém postou alguma foto sua em um ângulo que não te favorece. Aliás, acho isso triste: em vez de a foto representar uma memória de um momento alegre, pra ser compartilhada, ela passa a ser só mais um culto a imagem de fulano, siclano e beltrano, que tem que estar sempre aparentando seu melhor, e
ai de quem ousar postar uma imagem que mostre que você - como qualquer ser humano - tem seus defeitos. Acho que tá todo mundo meio louco quanto a isso, e um movimento que fosse de encontro a esse ideal de perfeição, desmistificando nossas vidas invejáveis e mostrando que sim, todo mundo tem cara de defunto pela manhã, seria ótimo. Menos cobrança, mais aceitação. Menos neura, mais tranquilidade.
O que me entristece é que infelizmente isso não foi o que aconteceu. O #stopthebeautymadness se transformou em #desafiosemmake, e a ideia de tratar nossa imagem ao natural como o que ela é - algo
natural - se transformou em um ato de coragem, uma coisa absurda, desafiadora, quase cruel. Virou o desafio pra brincar com as amigas e azinimigas e fazer todo mundo mostrar a cara limpa na internet, gerando um prazer quase sádico em ver os defeitos do outro. Ao invés de ser um ato espontâneo, pra incentivar a auto-aceitação, se tornou uma coisa a ser feita pra não ter que pagar algo pra quem te desafiou, ou pra "entrar na moda". Só isso explica a quantidade de fotos que eu encontrei pela tag #desafiosemmake em péssimas condições de iluminação, com cabelo na cara, olhando pra baixo, qualidade ruim, ângulos estranhos, e até gente com maquiagem (coerência, sdds).

Se eu pudesse criar uma campanha, seria o #desafiosemmedo. Viver uma vida sem medo de ser feliz, sem medo de falhar, sem medo de mostrar pro mundo que você não acorda com cílios longuíssimos, bochechas coradas e cabelo esvoaçante. Sem medo de ser tagado em alguma foto esquisita, sem medo de pagar mico, ou de ficar no vácuo. Toda essa insegurança em relação a nossa aparência (e a outras coisas também) impede a gente de viver plenamente os momentos por ficarmos preocupados demais com "o que vão pensar de mim?" e "o que é que eu estou parecendo?". E imagino que, quando tivermos nossos sessenta, setenta anos, são esses momentos bem vividos que vamos preferir ter escolhido, ao invés de parecer perfeitas o tempo todo.
E ademais, continuo acreditando no cara que cunhou essa frase: "um sorriso é a mais bela maquiagem que uma mulher pode usar em seu rosto". E vocês? Qq6ashão? Vale a pena deixar a preocupação com a aparência de lado pelo menos um pouquinho?
Esse texto foi inspirado no tema de post especial de setembro, proposto pelo
Rotaroots. Mais alguém resolveu falar sobre isso? Quem aí aderiu ao #stopthebeautymadness (ou ao #desafiosemmake)? O que vocês acharam a respeito do texto?
Beijos e até o próximo post!
*Créditos das imagens: a primeira é minha, e a segunda pesquei no Tumblr. Não consegui encontrar o autor original - se você souber, é só me chamar aqui!