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Um filme de herói roubou meu coração

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Eu estou careca de dizer nesse blog que não gosto de filme de herói, e quando Guardiões da Galáxia 1 surgiu na minha vida - mesmo apesar da trilha sonora absurdamente incrível - senti um misto de aborrecimento, confusão e preguiça com um guaxinim, um tronco falante, uma mulher verde e o protagonista bonitão e convencido explodindo tudo e todos na minha frente. Quando Digníssimo, meu patrocinador oficial de idas ao cinema, disse que queria que eu o acompanhasse pra ver a sequência, jurei que não ia reclamar - muito - e torci pra que a trilha sonora fosse ainda melhor, mas eu realmente não estava esperando que, lá pelas tantas, aquele negócio me causasse SENTIMENTOS.
É presunção demais de minha parte dizer que Guardiões - assim como seus primos criados pela Marvel - é um filme ruim. É um filme que não se leva a sério, que não se preocupa nem por um instante em trazer pra telona questões profundas e cabeçudas, que quer abusar dos clichês, das cenas de explosão, dos alívios cômicos e forçar nossa suspensão da descrença até o limite; mas que nem por isso se torna um desperdício de tempo, dinheiro, canções excelentes e Chris Pratt.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!1ALERTA DE SPOILER!!!!!!!!!!!!!!!!!!1
Guardiões 2 é um filme que, pra além dos supervilões, lasers e piadas abusadas TASERFACE pra todo lado, também fala de coisas próximas demais da gente; e uma dessas coisas tem a ver com Ego, um personagem que merecia um troféu por personificar uma ideia tão bem. Peter finalmente conhece o pai alienígena que, como toda história na vida da gente, é feito de idealizações e mitos; e esse mito surge representando muito bem seu papel: aniquilador de exércitos inimigos, dono do seu próprio planeta, cheio de respostas e onipotente. Ego é um deus, do tipo que deixa a gente boquiaberto e apaixonado logo de cara.
com d minúsculo, pra parecer mais modesto
O problema de ser filho de um deus é que as decisões deles costumam ser incontestáveis e a história tem registros ruins acerca do que acontece com filhos imperfeitos - e spoiler alert: nenhum filho é perfeito. O filho perfeito é aquele que nunca chora, não suja as calças, não faz manha pra comer e vive a vida do jeito que nossos pais e mães sonharam pra gente no útero. Tanto Peter quanto nós todos fomos filhos perfeitos por um momento, até que a verdade aparece - até que nós crescemos, tomamos nossas próprias decisões e infalivelmente decepcionamos aqueles que passaram noites velando pelo nosso sono e lavando nossas fraldas sujas, seja por ser homossexual, desprezar a empresa familiar e preferir entrar pro circo, votar no PSDB ou não querer usar nossos superpoderes pra manter qualquer que seja o planeta dos nossos pais. A vantagem de não ser filho de um deus é que, ele pode até gritar e te por de castigo, mas nunca vai usar os superpoderes dele pra te prender.
Peter Quill tem que fazer uma escolha difícil (assim como todos nós): ele pode manter a ilusão do pai perfeito - mesmo sabendo que, no fundo, ele é um lunático - e aniquilar toda a sua vida fora do planeta Ego, sua gangue de amigos esquisitos e seus hits dos anos 80 em troca do amor eterno daquele homem fantástico - ou ele pode chutar o balde, despertar o ódio, levar umas porradas e fazer sua própria escolha, criar seu próprio planeta e escolher a sua própria família, que é o que, em última instância, todo mundo faz quando cresce. Ambas as possibilidades parecem ter vantagens e desvantagens na mesma medida, mas o problema de aceitar pra sempre o cargo de filho é que, por mais maravilhosa que essa ideia seja, ela não dá espaço pra nenhuma outra possibilidade.
 é caso de se ficar putinho mesmo, baby Groot
O problema de ser filho de um deus chamado Ego é que ele é seu próprio mundo, e nada que não seja Ego pode habitar ali. A história do relacionamento dele com a Meredith e como ele termina é uma metáfora perfeita sobre como não pode existir nenhum outro tipo de amor - e por que não, vida - em alguém que se coloca em primeiro lugar o tempo todo. Pra amar outra pessoa, é preciso abrir mão do ego em certa medida - é preciso crescer. Renunciar aos nossos sonhos desmedidos é algo que dói e exige maturidade pra ser feito, mas é a única forma de abrir espaço pra outras pessoas e permitir que a nossa vida gere outras vidas, num sentido metafórico e literal também. Ninguém pode ser pai de alguém sendo filho pra sempre, e se Ego acha que merece o título de pai de Quill só por ter parte no processo de fecundação, é bom que ele pense de novo - aqui na Terra a gente já aprendeu faz um tempo que pai é quem cria, e fazer um filho e sumir por 26 anos pra cuidar do seu próprio planeta é um jeito ótimo de conquistar o troféu de pior pai do mundo da galáxia.
E Yondu não aparece de graça nesse filme - aquele grandalhão azul e bronco, pintado de vilão por todo o primeiro filme, tem sua chance de mostrar que a vida não é feita de preto no branco e consegue se redimir e de quebra, salvar a pátria. Na cena do funeral, quando Quill finalmente se dá conta de que seu David Hasselhoff e ele não eram assim tão diferentes, é o momento em que ele também enterra suas fantasias de criança e entende que Yondu, com todos os seus defeitos, é quem foi seu pai real - assim como nós, num dado momento da vida, nos reconciliamos com nossos pais e mães e aceitamos todas as suas falhas, porque entendemos que ser adulto está bem longe de ser um super-herói, como um dia a gente ingenuamente acreditou. A cena depois dos créditos, em que ele aparece pra confrontar Groot adolescente me fez dar gritinhos de empolgação na cadeira - todos os Guardiões evoluem e formam laços ao longo da história, e é no decorrer desse filme, em cenas como a que Peter dança com Gamora e Drax afirma pra Nebulosa que eles são uma família, que percebemos que aqueles caçadores de recompensa e assassinos de aluguel egoístas não são os mesmos personagens que encontramos no final dessa sequência. Todos eles, com seus defeitos horríveis, continuam fazendo parte da vida uns dos outros por livre e espontânea vontade - e se isso não é ser uma família, eu não sei o que poderia ser.
Mais do que ver Quill enterrando suas fantasias de pai perfeito e crescendo, Guardiões continua falando sobre pertencimento e a possibilidade de se escrever uma história nova - Gamora é outra personagem que cresce e consegue enxergar que Nebulosa e ela não são assim tão diferentes; que nenhuma das duas é a mocinha ou a vilã, nenhuma das duas é à prova de culpa e julgamentos, mas ela consegue entender que as circunstâncias das duas não eram das melhores e naquele passado ela fez o que conseguiu e, se isso não foi o suficiente, talvez agora, num momento melhor, ela possa fazer mais. Drax, que passa a maior parte do tempo sendo o alienígena esquisitão e o alívio cômico da equipe, é quem enxerga Mantis de verdade e dá pra ela um lugar entre os Guardiões; e Yondu - de novo - se enxerga em Rocket e dá pra ele uma outra perspectiva sobre si - com uma história onde ele é visto mais como máquina do que um ser consciente e tem pouca relação de verdade com outras pessoas, não é estranho pra nós que ele tente afastar as pessoas o tempo todo agindo como um guaxinim irritante, já que guaxinins irritantes nunca desapontam ou magoam ninguém - e se o fazem, não vão se responsabilizar por isso. Se Ego quer amor ilimitado e exclusivo, essa conversa preciosa entre os dois nos dá ideia que viver fazendo o oposto é igualmente triste e perigoso, e que por mais que amar pessoas e formar vínculos seja extremamente cansativo, frustrante e cheio de percalços, talvez essa ainda seja a nossa melhor possibilidade.
Guardiões da Galáxia continua sendo um filme de herói absurdo e descompromissado com a realidade, e continua reforçando ainda mais o sentimento de que não importa se você é azul, verde, um guaxinim, um tronco, um herói B dos quadrinhos, um ciborgue ou um órfão, você ainda pode encontrar sua turma, chutar bundas e salvar a galáxia - e quem sabe, encontrar o amor verdadeiro. Não é difícil entender por que fui uma das poucas pessoas a ficar imune ao charme dessa gangue esquisita, já que se sentir um ET deslocado por boa parte da sua vida não é um sentimento tão estranho assim como crescemos acreditando que fosse. E é claro, as coisas se tornam ainda melhores se você puder fazer tudo isso embalado por um mixtape de canções dos anos 70.
Se você ainda odeia filmes de herói, Guardiões da Galáxia continua valendo a pena por trazer outra trilha sonora incrivelmente gostosa e dançante. Numa votação, eu ainda escolheria o Awesome Mix número 1, que inclui David Bowie, Jackson 5 e Marvin Gaye numa tacada só e a dose ideal de baladas brega (if you like piña coladaaaaaaaaaaaaa and getting caught in the rain), mas a escolha de The Chain pra tocar no confronto entre Ego e Quill (and if you don't love me nooooooooooow you will never loooooooove me agaaaaaaaaaaain) e mais baladas brega pra aquecer nosso coração (Come a Little Bit Closer e Wham Bam) me conquistou de um jeito que não pude escolher outra trilha sonora pra escrever esse post. Baby Groot aprovou.
não dá pra matar todo mundo num filme em que toca Fleetwood Mac e Electric Light Orchestra né

Grace and Frankie é do balacobaco

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(Grace and Frankie, Netflix, 2015)
Eu conheci Grace and Frankie em 2016, pouco antes das série lançar sua segunda temporada no Netflix. Os amigos, como sempre, vieram surtando e dizendo que eu tinha que ver e eu aceitei a sugestão porque ela cumpria meus dois requisitos pra aceitar uma série nova na minha vida: tinha poucos episódios e esses episódios tinham pouco tempo eu sou ridícula eu sei. Trinta e nove episódios depois, estou aqui, escrevendo esse post com a intenção de arrebanhar mais gente pro culto a essas duas mulheres incríveis.
Toda vez que sugiro a série pra alguém e a pessoa me pergunta "é sobre o quê?", me pego repetindo a sinopse do primeiro episódio: Grace, mulher de negócios do ramo cosmético e Frankie, artista super esotérica, são casadas com advogados sócios de uma empresa. As duas, que nunca se gostaram, estão esperando os maridos pra um jantar importante, imaginando que se trata do anúncio da aposentadoria de ambos; mas Robert e Sol, seus respectivos esposos, estão ali pra contar que são homossexuais e pretendem se casar. O barraco está armado, a casa cai, e a primeira temporada (são três até o momento) se desenrola principalmente ao redor dessa bomba e como lidar com os cacos da explosão.
Mas Grace and Frankie não é apenas uma série sobre relacionamentos gays e mulheres de 70 anos abandonadas pelos esposos.

A expectativa de vida da humanidade aumenta a cada ano, a ponto de fazer a gente se preocupar com a perspectiva de trabalhar até os 80; e enquanto cada temporada de estréias traz pras telas gente impossivelmente linda e bombada e discute o triste drama da geração millenial de todas as formas possíveis, Jane Fonda e Lily Tomlin protagonizam uma história contada pela ótica da velhice, um lugar onde todo mundo pretende chegar mas ainda não teve tempo de pensar como será. Sabemos que a juventude é o que vende por aí, sabemos também que uma hora ela acaba, mas ainda não sabemos exatamente o que fazer quando essa hora chega, e Grace, Frankie, Robert e Sol nos dão pequenas lições a respeito disso, mostrando que mesmo quem é adulto há décadas ainda garante seus momentos de fragilidade e insegurança; que a vida aparentemente nunca estaciona num lindo patamar de estabilidade; e que virar a curva dos 70 anos está bem longe de significar a morte (a menos, é claro, que você queira).
Frankie é a hippie sempre avoada e rainha do nonsense e Grace, a mulher rica e esnobe de coração de pedra. A série podia ser uma comédia cheia de absurdos e humor estereotipado - e esses momentos até existem, devidamente intercalados com cenas de uma profundidade enorme por parte das protagonistas e seus ex-maridos. Os filhos dos casais acabam sendo o alívio cômico na maioria dos momentos (e vocês vão amar a Brianna), enquanto o fio principal da série se desenrola falando da fragilidade do corpo, de morte e doenças, de aposentadoria e novos rumos profissionais, de divórcio, casamento, amor, solidão, namoro, homofobia e até a sexualidade feminina na terceira idade. É uma história comum (sobre uma família um pouco diferente, é verdade), com situações e sentimentos impossíveis de não se relacionar, porque todo mundo ali, tal qual nós, está lidando com A Vida e suas presepadas e sofrendo muito no processo. Tem muita raiva, inveja, sentimentos confusos demais e uma boa dose de tóchicos pra anestesiar a realidade, mas também temos pessoas de verdade tomando decisões, fazendo as coisas acontecerem e tomando a rédea das próprias vidas o tempo todo. O episódio piloto, em que Robert e Sol decidem sair do armário e se casar depois de tantos anos pode fazer a gente se questionar: mas isso valia mesmo a pena? Depois de décadas de casamento? E a grande questão é que sim, vale. Fazer nossos desejos acontecerem definitivamente vale a pena, acontecendo aos 25 anos ou aos 70.

Frankie e Grace são ótimas de se ver na tela, juntas. As duas se apresentam pra gente como mulheres com nada em comum - até que, de repente, elas passam a ter coisas demais numa tacada só. Se isso serve de plano de fundo pra uma porção de conflitos pra fomentar a história, a gente acompanha na mesma medida o surgimento de uma das parcerias mais bonitas que já vi na ficção, um exemplo fantástico de sororidade. Ambas são mulheres fortes e admiráveis, cada uma com a sua personalidade e história, mas com o mesmo espírito criativo e corajoso, uma capacidade de ser gentil quando necessário e cuidar uma da outra. Grace e Frankie podiam ser eu e você. Eu espero que sejam, aliás.