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#30: Box of memories

3 comentários
O BEDA tá quase acabando e, como não poderia deixar de ser, estou com uma pontinha de melancolia pelo fim dessa maluquice tão deliciosa que inventei de fazer junto com as #migas da internet. Como esse é o último post antes daquele inevitavelmente cheio de conclusões e epifanias que tive escrevendo durante 31 dias, queria escrever sobre alguma coisa importante e que fizesse parte de mim disso aqui.

Alguém se lembra que algum dia esse blog já teve fotos?
Sempre fui uma pessoa que guarda coisas. Pessoas. Memórias. Brinquedos antigos. Cartinhas. Apostilas de caligrafia do Jardim III. A famosa Síndrome do Esquilo. Se eu tivesse que explicar o encanto que senti pela fotografia, diria que ela sempre foi a maneira mais fácil de guardar coisas que eu não podia transportar comigo. Quando eu finalmente ganhei minha própria câmera, que ainda por cima era digital e não me deixava limitada a clicar cuidadosas 36 poses e pagar por elas depois, alguma coisa clicou em mim também. De repente, eu podia escolher aquilo que me chamava a atenção - coisas que me faziam sentir outras coisas - e guardar sem ter que pedir algo pra alguém ou explicar nada. Aí eu percebi que nunca soube traduzir muito bem certos sentimentos e que uma imagem às vezes dizia mesmo mais do que mil palavras.
(Duas fotos tiradas com a minha primeira câmera ruinzinha: meu tênis preferido e meus origamis preferidos)

Mesmo com zero conhecimento técnico (ou uma super câmera), sempre gostei da ideia de estar cercada de coisas bonitas, e por trás da lente eu podia fazer isso - pegar todos os detalhes que a maioria das pessoas deixa passar e capturar de um jeito bacana. Eu gostava de manipular imagens, luzes e cenários, mesmo sob a acusação de que as minhas fotos não eram boas porque não eram ~reais~. Sendo honesta, eu nunca quis fazer um registro muito fiel da realidade; eu só queria que ele fosse um bom registro. Alguma coisa que deixasse meu coração quentinho no futuro. Queria lembrar de coisas que me fizessem sentir algo - sentimentos são os únicos fatos, vocês dizem; e essa sempre foi a única regra da minha vida. A vida real já tem uma cota muito generosa de feiúra e aspereza pra gente ter que lidar com isso também nas coisas que podemos criar.
(O primeiro dia que saí pra fotografar com a minha câmera compacta nova - essa edição parece tão anos 70)

Mesmo quando a gente pensa em fotojornalismo ou street photography, a fotografia não é a realidade. Ela é um ângulo, um recorte congelado, a luz exposta num sensor ou num filme x ou y que se desenvolve mais puxado pro azul ou pro vermelho. O plano mais aberto ou fechado te fazendo focar em alguma coisa. A fotografia é um mundo próprio nosso que a gente torna real quando aperta aquele botão, enxergando pelas nossas lentes fumê ou cor-de rosa. A gente diz algo naquilo que escolhe compartilhar, conta uma história nas entrelinhas. E aí vocês desculpem o clichê, mas eu gosto muito de contar histórias. Se elas são boas ou não são outros quinhentos, mas eu tenho muitas pra contar.
Acontece que os últimos meses da minha vida não tem sido os mais fotográficos e eu nem sei explicar o porquê: eu amava criar cenários e inventar moda com o tripé, até que de repente (tal qual Fátima e Bonner, GENTE), não amava mais. Tudo parecia errado; as cores, o foco, os ângulos, a luz, o assunto, a porra toda. Depois de uma compacta analógica, duas digitais, uma DSLR, quatro celulares e uma Instax, um belo dia a gente acorda sem ter a menor ideia do que fazer com essa parafernália toda na mão. Parece mesmo um relacionamento em que você dedicou anos e percebe que não sabe mais o que fazer naquele lugar. Fiquei braba e frustrada: se a fotografia fosse uma pessoa de verdade, eu estaria acusando ela de ser uma ingrata sem coração que me abandonou sem mais nem menos. Acho que ela podia dizer o mesmo de mim também.
A gente nem percebe, mas de repente vai deixando de fazer tudo aquilo que gostava porque a vida tá ruim demais e não tem disposição pra isso, e quando olha, não sabe mais como escrever posts e nem tirar fotos. A próxima coisa que provavelmente vai acontecer é eu perder a capacidade de me comunicar. Então eu resolvi resgatar várias fotos antigas que tirei desde 2007 e que acho que nunca tinha postado por aí, pra poder me lembrar de como me senti nesses momentos.
(É possível que eu só tenha escrito esse post pra me convencer de que ainda posso tirar fotos bonitas e me entreter com isso - não confirmo nem nego.)
E amanhã tem a grande celebração na linha de chegada do BEDA. Coloquem as champagnes na geladeira e deixem os pijaminhas bonitos à postos pra nossa festa! YAY