No primeiro semestre desse ano, a Netflix colocou no catálogo deles mais uma série original: Anne with an E, uma história inspirada no livro Anne of Green Gables, da Lucy Maud Montgomery; que eu tinha mencionado aqui no blog superficialmente quando mostrei as fotos da coleção Puffin in Bloom; Na época, Anne era o livro mais desconhecido dentre aqueles quatro volumes e por isso, optei por deixá-lo pro final nas leituras.
Anne Shirley é uma menina órfã que vai parar por engano em Avonlea, uma ilha canadense cheia de terras cultiváveis, árvores estupidamente frondosas e raios de sol brilhando em todo lugar. Anne encontra Matthew Cuthbert na estação, esperando-o como seu novo pai, sem saber que ele e sua irmã tinham solicitado que o orfanato lhes enviasse menino que pudesse ser útil para os dois nas tarefas diárias da fazenda onde mora. Ela não pára de falar nem por um instante quando os dois se encontram, deslumbrada com a ilha e cheia de ideias pra compartilhar sobre seu novo futuro e sua história de vida até ali. É a irmã de Matthew, Marilla, que desfaz o mal-entendido logo no início da história e traz a menina ruiva de volta à realidade na qual vive e da qual escapara tão facilmente.
Esse primeiro conflito que Anne encara; a quebra das expectativas fantásticas que ela havia criado tão rapidamente sobre morar ali e ser parte daquela família - porque ela é uma mestra em criar fantasias - já nos coloca em contato com um lado muito marcante da personagem: ao mesmo tempo em que é uma menina adorável e sensível, ela também é dramática e difícil. Mesmo sendo uma história pensada para o público infantil, Anne e sua jornada cativam qualquer um; especialmente pelo fato de que, embora só exista na tela e nas páginas, as sensações que ela nos causam são incrivelmente, dolorosamente reais.
Não costumo gostar de adaptações quando se trata de algo que eu já conheci e amei, mas a série, que difere do primeiro volume (é uma série de seis volumes no total, acompanhando Anne desde os 11 até os 40 anos) em alguns aspectos da história, é bastante fiel no sentimento que quer passar para o público: ela é uma criança com uma história triste, tentando desesperadamente se agarrar à felicidade em todos os lugares que pode encontrá-la. É impossível não se sentir contagiado pelo espírito imaginativo de Anne, pelo seu amor por palavras gigantes, vestidos pomposos e brincadeiras de faz-de-conta que nos recordam da nossa própria inocência e fantasias infantis; assim como é muito difícil não se identificar com os momentos tristes e as emoções intensas, mesmo sem ter se aproximado das vivências dela na vida real.
Anne é uma história pela qual me apaixonei sem nunca ter ouvido as recomendações exaustivas que a gente recebe hoje em dia, por todas as redes sociais, quando algo conquista a audiência. Antes da Netflix lançar sua versão, a história tinha pouca projeção por aqui - aparentemente o livro não é muito popular, então foi como descobrir um tesouro escondido assim como os que a Anne enxerga nos lugares mais recônditos de Avonlea. Sem nenhuma expectativa inicial, a história tem uma pureza que nos atrai e consegue trazer à tona nossos sentimentos mais delicados e vulneráveis, aqueles que dificilmente deixamos transparecer no nosso cotidiano, no mundo duro e cruel. Envolver-se com essa menina é dar um pouco de voz a uma parte nossa que não tem medo de ser sentimental - Anne sofre e não sabe esconder isso de ninguém, mas a maneira como ela consegue enfrentar sozinha seus grandes medos e se manter fiel a ela mesma, ainda que ninguém pareça estar a seu lado, faz com que ela pareça uma rainha guerreira ao invés de uma estudante do interior. Ela é uma menina com um coração imenso e que transborda gratidão, mesmo quando o mundo não parece merecê-la; e eu a vejo como uma inspiração enorme. Sua maneira de viver cativa as pessoas ao seu redor - Matthew, Marilla, a amiga Diana, todos são personagens que passam a ter suas vidas tocadas pela sensibilidade da garota e se vêem descobrindo cada vez mais tesouros escondidos por onde Anne os leva a olhar.
A série da Netflix coroa tudo isso com uma fotografia maravilhosa, que combina perfeitamente com a história. Essa não é a primeira adaptação pra TV da história de Anne Shirley, mas realmente achei que não poderia ter sido melhor. Recomendo a todo mundo conhecer a história, pelos livros ou pela TV - é o tipo ideal de coisa que promove na gente um coração quentinho e um pouco mais de esperança e coragem pra viver. Se os Cuthbert não a tivessem adotado, eu certamente adotaria. Pra quem ainda não viu, ta aí a dica de mais uma mulher fantástica pra gente amar (com rostinho de menina sardenta). ♥
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#8: Amo Mary Crawley e vou protegê-la
2017 foi um ano excepcional em termos de séries assistidas: o ano nem acabou e já terminei TRÊS. Sou a rainha de receber recomendações de séries e engavetar tudo - não por maldade; porque eu realmente quero ver as coisas, mas minha disponibilidade pra sentar na frente de uma tela e postergar minhas atividades é altamente influenciável por coisas como o alinhamento planetário e a umidade relativa do ar: hoje eu quero, amanhã talvez não mais (oi, Gilmore Girls). Quando a Michas me falou de Downton Abbey, os episódios de uma hora me deixaram pensativa se aquele não seria mais um fracasso na minha lista de séries; mas eu ainda não contava com Mary Crawley.
Pra você que não conhece a série, estamos na Inglaterra em 1912. Downton Abbey é propriedade da familia Crawley e Robert, conde de Grantham, tem três filhas que não podem herdar sua propriedade ou seu dinheiro. Mary, a mais velha, está ~prometida~ para Patrick, filho do futuro herdeiro de Downton, mas ele e seu pai morrem no naufrágio do Titanic, logo no início do primeiro episódio. Quando a família é informada de que, além da perda familiar, outro herdeiro dos Crawley - um parente distante e desconhecido - é quem vai herdar a casa, a propriedade e o trabalho da vida toda de Robert, Mary se apresenta a nós insatisfeita com o fato de ter de vestir luto porque detesta preto.
Sybil, a irmã caçula, é amorosa e decidida; e Edith é a irmã do meio, modesta e recatada, deixando claro nos primeiros minutos em cena uma evidente sua rivalidade com a mais velha. A primeira impressão que temos de Mary é a de uma jovem mulher privilegiada e arrogante, que não se importa com nada ou ninguém além dos seus interesses - mas Downton Abbey é uma série com personagens complexos e bem distante de caricaturas unidimensionais. O antagonismo entre Mary e Edith se arrasta até o final da série, e é fácil cair na armadilha de enxergar uma das duas como representante dos mais altos valores e a outra como uma degenerada moral. Mary é cheia de si e não tem medo do sexo oposto -características que cem anos depois ainda temos a tendência de associar com mulheres más e perigosas - e se somarmos a isso sua facilidade para jogar a verdade na cara das pessoas sem se preocupar muito com os sentimentos delas, já temos uma personagem odiar e torcer pra que todos os males recaiam sobre ela. A própria personagem incentiva essa percepção e gosta de ser vista assim, mas nesse blog nós servimos à lady Mary e eu estou aqui pra defender essa pessoinha maravilhosa e incompreendida, ainda que ela não precise.
O recato de Edith não é genuíno; ao contrário do que vemos nas gentilezas de Sybil. Desde o primeiro episódio ela deixa o ressentimento que sente por Mary transparecer, irritada com seu desprezo pelo luto - e no início, parece que toda a sua vida gira em torno da irmã. Mary é bonita, esperta e a filha mais velha, com um casamento ~arranjado~ com o primo que Edith ama. Ela é recatada porque... é o que sobrou. Mary é excelente em ser ela mesma, flertando com os ocasionais #partidões que vem pra Downton com uma autoconfiança invejável, conversando com os convidados sempre eloquente e com uma resposta espirituosa; então competir com ela está fora de questão. Edith ocupa esse lugar disponível de filha dedicada ao lar porque, no início da série, ser a senhora Patrick Crawley e governar Downton parecia a única carreira de sucesso para as irmãs, e se ela não pode ser isso, então não há mais nada com o que ela possa ser feliz. Durante as temporadas, vamos descobrindo que isso não é verdade, e Edith tem um desenvolvimento maravilhoso quando pode, enfim, tomar as rédeas da própria vida e sair da sombra da irmã, enxergando seu próprio potencial para ser feliz à sua maneira - e é nesse momento que as duas podem considerar uma trégua.
Mary não é a vilã responsável pela infelicidade da irmã, mesmo apesar de algumas condutas reprováveis (que, no caso, ela também é capaz de revidar muito bem). É importante entender Edith para vermos que Mary não é a vadia manipuladora que a irmã alega - dois adjetivos muito mais precisos, usados por dois personagens da série em momentos distintos para se referir a ela, são bully e covarde. Sua fachada sem sentimentos é intimidadora e estranha, mas Mary Crawley não é uma mulher má porque sim. Ela tem sentimentos, mas lidar com eles, expô-los e assumi-los é assustador demais - porque bem, ela é uma mulher nobre.
Uma das coisas que mais me fascinaram na série é a nobreza dos Crawley diante de dificuldades que precisam ser resolvidas; seja a vinda do novo herdeiro para a propriedade, os problemas de dinheiro para a manutenção de Downton e uma ou outra chantagem que é feita por alguém pelos motivos mais variados. Enquanto eu, diante dessas situações, certamente fecharia a cara, choraria em público ou até xingaria; os Crawley dão sorrisos perfeitos e garantias inabaláveis de tranquilidade, deixando tudo de desagradável pra ser discutido em casa, a portas fechadas, muitas vezes ocultando isso de boa parte dos membros do clã. Robert e sua mãe Violet (que é simplesmente a melhor personagem da vida) são excelentes nesse papel de liderar a comunidade; o que me faz refletir que por todas as razões do mundo, os Crawley merecem aquela mansão estapafúrdia e centenas de acres de terra sobre os quais cobram aluguel: eles são o ponto de apoio do povoado, navegando os mares bravos com o semblante de quem tem certeza do que está fazendo, mesmo que nem sempre a tenham. Calma psicológica (e talvez vocês saibam por experiencia própria) é um recurso valiosíssimo, e dentre as irmãs Crawley, é Mary quem é mestra em dominar suas emoções. Ela sofre em silêncio, chora quando ninguém está olhando e tem plena consciência do que está fazendo e do que deve ser feito, enquanto Sybil derruba os pilares da aristocracia sem nem querer saber e Edith tenta destruir famílias ou põe fogo na casa. É essa impassibilidade que faz dela uma grande confidente do pai para todas as questões da família, e é isso que a deixa preparada pra segurar as rédeas de Downton; uma responsabilidade enorme, como seu pai destaca desde o episódio 1. Em The Crown, diante da morte do rei e do anúncio oficial de Elizabeth como a Rainha, ela recebe uma carta da avó lembrando-a que a coroa sempre deve vencer, e Mary é a mulher que tem a capacidade de colocar a coroa acima dela mesma. Ser a senhora de Downton pesa, e é para isso que ela se preparou.
Mary Crawley é uma covardona com uma força admirável e uma bully com um coração de ouro. Se ela tem seus momentos ruins com Edith e paga de coração de pedra para seus pretendentes, algumas pessoas da casa a conhecem muito melhor do que ela demonstra com seu sarcasmo e reviradas de olhos por aí. Carson, o mordomo e Anna, empregada e dama de companhia, são as maiores evidências de que por trás dessa fachada existe uma mulher que merece não apenas admiração ou medo, mas amor e carinho. Se a Violet é a melhor pessoa da série, precisamos concordar que Anna é aquela com o melhor coração, e mesmo apesar de a posição social não fazer das duas melhores amigas e sim ama e senhora, Mary não precisa sentar-se à mesa com ela e tomar chá pra ter empatia pela mulher que trabalha todos os dias ao seu lado. É impossível não gostar de Anna, essa personagem que mesmo apesar dos maiores perrengues vê a vida de maneira positiva, sem deixar transparecer mágoas, raiva ou derrota. Talvez seja pela honestidade no trato com ela que Mary se afeiçoa tanto à Anna, fazendo muito alem por ela do que seu papel de lady requer, forjando uma relação de cumplicidade com a criada. Isso, obviamente, sem falar no amor - eu não quero dar spoilers pra quem não assistiu (assistam Downton, gente), mas Mary tem toda a disposição pra ser uma romântica sofredora, abrindo mão da própria felicidade quando considera que a pessoa amada vai encontrar tudo aquilo e muito mais nos braços de outra pessoa. Ela é enfermeira, fazendeira e negociante se preciso for, e não tem medo de se sujar pra ter o trabalho bem feito - embora, obviamente, como uma nobre rica, ela prefere ficar sentada na sombra só olhando. Mas não é o que todo mundo prefere?
Em um episódio, Violet diz a Mary que a falta de compaixão pode ser tão vulgar quanto o excesso de sentimentalismo - é um dos muitos preciosos momentos de sabedoria dessa personagem sensacional que só diz verdades. Ela é muito realista, o que na maior parte do tempo consegue usar a seu favor para lidar com as situações da melhor maneira possível, mas a frieza que serve muitas vezes de barreira para manter o autocontrole afasta e magoa as pessoas que ela ama; e se talvez o dilema de sua irmã do meio seja descobrir o que ela pode ser, o seu seja aceitar a sua fragilidade. Durante a série, Mary vai se permitindo aos pouquinhos sentir mais - e fica muito claro como as emoções mais intensas parecem ser capazes de aniquilá-la por inteiro, como acontece logo depois do famigerado especial de Natal da terceira temporada; então é difícil culpá-la por tentar se proteger. Tom e Matthew são dois personagens que aparecem na vida dela e, apoiando-a constantemente, vão mostrando a Mary que envolver-se emocionalmente e deixar os sentimentos aparecerem tem lá suas vantagens.
Além de tudo isso, lady Mary é maravilhosa ao quebrar convenções o tempo todo - cortando o cabelo, se interessando por negócios, ou se relacionando com o sexo oposto de maneiras que deixariam a avó de cabelo em pé. Ela é uma mulher jovem e rica e, ao invés de se deixar ser arrastada pelo peso da sua posição social, frequentemente usa seus privilégios pra desafiar as coisas, ainda que só faça isso pelo bem dos seus interesses. Ela não é uma militante subversiva como a irmã, mas tampouco lhe interessa ser um bibelozinho nas mãos de um marido que lhe dite todas as opiniões. Mary tem poder e gosta disso, e é delicioso assistir uma mulher há cem anos que pisava no patriarcado como podia, sem nunca perder a pose.
Pra você que não conhece a série, estamos na Inglaterra em 1912. Downton Abbey é propriedade da familia Crawley e Robert, conde de Grantham, tem três filhas que não podem herdar sua propriedade ou seu dinheiro. Mary, a mais velha, está ~prometida~ para Patrick, filho do futuro herdeiro de Downton, mas ele e seu pai morrem no naufrágio do Titanic, logo no início do primeiro episódio. Quando a família é informada de que, além da perda familiar, outro herdeiro dos Crawley - um parente distante e desconhecido - é quem vai herdar a casa, a propriedade e o trabalho da vida toda de Robert, Mary se apresenta a nós insatisfeita com o fato de ter de vestir luto porque detesta preto.
Sybil, a irmã caçula, é amorosa e decidida; e Edith é a irmã do meio, modesta e recatada, deixando claro nos primeiros minutos em cena uma evidente sua rivalidade com a mais velha. A primeira impressão que temos de Mary é a de uma jovem mulher privilegiada e arrogante, que não se importa com nada ou ninguém além dos seus interesses - mas Downton Abbey é uma série com personagens complexos e bem distante de caricaturas unidimensionais. O antagonismo entre Mary e Edith se arrasta até o final da série, e é fácil cair na armadilha de enxergar uma das duas como representante dos mais altos valores e a outra como uma degenerada moral. Mary é cheia de si e não tem medo do sexo oposto -características que cem anos depois ainda temos a tendência de associar com mulheres más e perigosas - e se somarmos a isso sua facilidade para jogar a verdade na cara das pessoas sem se preocupar muito com os sentimentos delas, já temos uma personagem odiar e torcer pra que todos os males recaiam sobre ela. A própria personagem incentiva essa percepção e gosta de ser vista assim, mas nesse blog nós servimos à lady Mary e eu estou aqui pra defender essa pessoinha maravilhosa e incompreendida, ainda que ela não precise.
O recato de Edith não é genuíno; ao contrário do que vemos nas gentilezas de Sybil. Desde o primeiro episódio ela deixa o ressentimento que sente por Mary transparecer, irritada com seu desprezo pelo luto - e no início, parece que toda a sua vida gira em torno da irmã. Mary é bonita, esperta e a filha mais velha, com um casamento ~arranjado~ com o primo que Edith ama. Ela é recatada porque... é o que sobrou. Mary é excelente em ser ela mesma, flertando com os ocasionais #partidões que vem pra Downton com uma autoconfiança invejável, conversando com os convidados sempre eloquente e com uma resposta espirituosa; então competir com ela está fora de questão. Edith ocupa esse lugar disponível de filha dedicada ao lar porque, no início da série, ser a senhora Patrick Crawley e governar Downton parecia a única carreira de sucesso para as irmãs, e se ela não pode ser isso, então não há mais nada com o que ela possa ser feliz. Durante as temporadas, vamos descobrindo que isso não é verdade, e Edith tem um desenvolvimento maravilhoso quando pode, enfim, tomar as rédeas da própria vida e sair da sombra da irmã, enxergando seu próprio potencial para ser feliz à sua maneira - e é nesse momento que as duas podem considerar uma trégua.
Mary não é a vilã responsável pela infelicidade da irmã, mesmo apesar de algumas condutas reprováveis (que, no caso, ela também é capaz de revidar muito bem). É importante entender Edith para vermos que Mary não é a vadia manipuladora que a irmã alega - dois adjetivos muito mais precisos, usados por dois personagens da série em momentos distintos para se referir a ela, são bully e covarde. Sua fachada sem sentimentos é intimidadora e estranha, mas Mary Crawley não é uma mulher má porque sim. Ela tem sentimentos, mas lidar com eles, expô-los e assumi-los é assustador demais - porque bem, ela é uma mulher nobre.
Uma das coisas que mais me fascinaram na série é a nobreza dos Crawley diante de dificuldades que precisam ser resolvidas; seja a vinda do novo herdeiro para a propriedade, os problemas de dinheiro para a manutenção de Downton e uma ou outra chantagem que é feita por alguém pelos motivos mais variados. Enquanto eu, diante dessas situações, certamente fecharia a cara, choraria em público ou até xingaria; os Crawley dão sorrisos perfeitos e garantias inabaláveis de tranquilidade, deixando tudo de desagradável pra ser discutido em casa, a portas fechadas, muitas vezes ocultando isso de boa parte dos membros do clã. Robert e sua mãe Violet (que é simplesmente a melhor personagem da vida) são excelentes nesse papel de liderar a comunidade; o que me faz refletir que por todas as razões do mundo, os Crawley merecem aquela mansão estapafúrdia e centenas de acres de terra sobre os quais cobram aluguel: eles são o ponto de apoio do povoado, navegando os mares bravos com o semblante de quem tem certeza do que está fazendo, mesmo que nem sempre a tenham. Calma psicológica (e talvez vocês saibam por experiencia própria) é um recurso valiosíssimo, e dentre as irmãs Crawley, é Mary quem é mestra em dominar suas emoções. Ela sofre em silêncio, chora quando ninguém está olhando e tem plena consciência do que está fazendo e do que deve ser feito, enquanto Sybil derruba os pilares da aristocracia sem nem querer saber e Edith tenta destruir famílias ou põe fogo na casa. É essa impassibilidade que faz dela uma grande confidente do pai para todas as questões da família, e é isso que a deixa preparada pra segurar as rédeas de Downton; uma responsabilidade enorme, como seu pai destaca desde o episódio 1. Em The Crown, diante da morte do rei e do anúncio oficial de Elizabeth como a Rainha, ela recebe uma carta da avó lembrando-a que a coroa sempre deve vencer, e Mary é a mulher que tem a capacidade de colocar a coroa acima dela mesma. Ser a senhora de Downton pesa, e é para isso que ela se preparou.
Mary Crawley é uma covardona com uma força admirável e uma bully com um coração de ouro. Se ela tem seus momentos ruins com Edith e paga de coração de pedra para seus pretendentes, algumas pessoas da casa a conhecem muito melhor do que ela demonstra com seu sarcasmo e reviradas de olhos por aí. Carson, o mordomo e Anna, empregada e dama de companhia, são as maiores evidências de que por trás dessa fachada existe uma mulher que merece não apenas admiração ou medo, mas amor e carinho. Se a Violet é a melhor pessoa da série, precisamos concordar que Anna é aquela com o melhor coração, e mesmo apesar de a posição social não fazer das duas melhores amigas e sim ama e senhora, Mary não precisa sentar-se à mesa com ela e tomar chá pra ter empatia pela mulher que trabalha todos os dias ao seu lado. É impossível não gostar de Anna, essa personagem que mesmo apesar dos maiores perrengues vê a vida de maneira positiva, sem deixar transparecer mágoas, raiva ou derrota. Talvez seja pela honestidade no trato com ela que Mary se afeiçoa tanto à Anna, fazendo muito alem por ela do que seu papel de lady requer, forjando uma relação de cumplicidade com a criada. Isso, obviamente, sem falar no amor - eu não quero dar spoilers pra quem não assistiu (assistam Downton, gente), mas Mary tem toda a disposição pra ser uma romântica sofredora, abrindo mão da própria felicidade quando considera que a pessoa amada vai encontrar tudo aquilo e muito mais nos braços de outra pessoa. Ela é enfermeira, fazendeira e negociante se preciso for, e não tem medo de se sujar pra ter o trabalho bem feito - embora, obviamente, como uma nobre rica, ela prefere ficar sentada na sombra só olhando. Mas não é o que todo mundo prefere?
Em um episódio, Violet diz a Mary que a falta de compaixão pode ser tão vulgar quanto o excesso de sentimentalismo - é um dos muitos preciosos momentos de sabedoria dessa personagem sensacional que só diz verdades. Ela é muito realista, o que na maior parte do tempo consegue usar a seu favor para lidar com as situações da melhor maneira possível, mas a frieza que serve muitas vezes de barreira para manter o autocontrole afasta e magoa as pessoas que ela ama; e se talvez o dilema de sua irmã do meio seja descobrir o que ela pode ser, o seu seja aceitar a sua fragilidade. Durante a série, Mary vai se permitindo aos pouquinhos sentir mais - e fica muito claro como as emoções mais intensas parecem ser capazes de aniquilá-la por inteiro, como acontece logo depois do famigerado especial de Natal da terceira temporada; então é difícil culpá-la por tentar se proteger. Tom e Matthew são dois personagens que aparecem na vida dela e, apoiando-a constantemente, vão mostrando a Mary que envolver-se emocionalmente e deixar os sentimentos aparecerem tem lá suas vantagens.
Além de tudo isso, lady Mary é maravilhosa ao quebrar convenções o tempo todo - cortando o cabelo, se interessando por negócios, ou se relacionando com o sexo oposto de maneiras que deixariam a avó de cabelo em pé. Ela é uma mulher jovem e rica e, ao invés de se deixar ser arrastada pelo peso da sua posição social, frequentemente usa seus privilégios pra desafiar as coisas, ainda que só faça isso pelo bem dos seus interesses. Ela não é uma militante subversiva como a irmã, mas tampouco lhe interessa ser um bibelozinho nas mãos de um marido que lhe dite todas as opiniões. Mary tem poder e gosta disso, e é delicioso assistir uma mulher há cem anos que pisava no patriarcado como podia, sem nunca perder a pose.
Meu maior objetivo de vida é ser essa mulher linda, inteligente e detentora do título de mulher mais bem vestida das séries de época. Aceitem meu conselho e vejam Downton Abbey!!!
Grace and Frankie é do balacobaco
(Grace and Frankie, Netflix, 2015)
Eu conheci Grace and Frankie em 2016, pouco antes das série lançar sua segunda temporada no Netflix. Os amigos, como sempre, vieram surtando e dizendo que eu tinha que ver e eu aceitei a sugestão porque ela cumpria meus dois requisitos pra aceitar uma série nova na minha vida: tinha poucos episódios e esses episódios tinham pouco tempo eu sou ridícula eu sei. Trinta e nove episódios depois, estou aqui, escrevendo esse post com a intenção de arrebanhar mais gente pro culto a essas duas mulheres incríveis.Toda vez que sugiro a série pra alguém e a pessoa me pergunta "é sobre o quê?", me pego repetindo a sinopse do primeiro episódio: Grace, mulher de negócios do ramo cosmético e Frankie, artista super esotérica, são casadas com advogados sócios de uma empresa. As duas, que nunca se gostaram, estão esperando os maridos pra um jantar importante, imaginando que se trata do anúncio da aposentadoria de ambos; mas Robert e Sol, seus respectivos esposos, estão ali pra contar que são homossexuais e pretendem se casar. O barraco está armado, a casa cai, e a primeira temporada (são três até o momento) se desenrola principalmente ao redor dessa bomba e como lidar com os cacos da explosão.
Mas Grace and Frankie não é apenas uma série sobre relacionamentos gays e mulheres de 70 anos abandonadas pelos esposos.
A expectativa de vida da humanidade aumenta a cada ano, a ponto de fazer a gente se preocupar com a perspectiva de trabalhar até os 80; e enquanto cada temporada de estréias traz pras telas gente impossivelmente linda e bombada e discute o triste drama da geração millenial de todas as formas possíveis, Jane Fonda e Lily Tomlin protagonizam uma história contada pela ótica da velhice, um lugar onde todo mundo pretende chegar mas ainda não teve tempo de pensar como será. Sabemos que a juventude é o que vende por aí, sabemos também que uma hora ela acaba, mas ainda não sabemos exatamente o que fazer quando essa hora chega, e Grace, Frankie, Robert e Sol nos dão pequenas lições a respeito disso, mostrando que mesmo quem é adulto há décadas ainda garante seus momentos de fragilidade e insegurança; que a vida aparentemente nunca estaciona num lindo patamar de estabilidade; e que virar a curva dos 70 anos está bem longe de significar a morte (a menos, é claro, que você queira).
Frankie é a hippie sempre avoada e rainha do nonsense e Grace, a mulher rica e esnobe de coração de pedra. A série podia ser uma comédia cheia de absurdos e humor estereotipado - e esses momentos até existem, devidamente intercalados com cenas de uma profundidade enorme por parte das protagonistas e seus ex-maridos. Os filhos dos casais acabam sendo o alívio cômico na maioria dos momentos (e vocês vão amar a Brianna), enquanto o fio principal da série se desenrola falando da fragilidade do corpo, de morte e doenças, de aposentadoria e novos rumos profissionais, de divórcio, casamento, amor, solidão, namoro, homofobia e até a sexualidade feminina na terceira idade. É uma história comum (sobre uma família um pouco diferente, é verdade), com situações e sentimentos impossíveis de não se relacionar, porque todo mundo ali, tal qual nós, está lidando com A Vida e suas presepadas e sofrendo muito no processo. Tem muita raiva, inveja, sentimentos confusos demais e uma boa dose de tóchicos pra anestesiar a realidade, mas também temos pessoas de verdade tomando decisões, fazendo as coisas acontecerem e tomando a rédea das próprias vidas o tempo todo. O episódio piloto, em que Robert e Sol decidem sair do armário e se casar depois de tantos anos pode fazer a gente se questionar: mas isso valia mesmo a pena? Depois de décadas de casamento? E a grande questão é que sim, vale. Fazer nossos desejos acontecerem definitivamente vale a pena, acontecendo aos 25 anos ou aos 70.
Frankie e Grace são ótimas de se ver na tela, juntas. As duas se apresentam pra gente como mulheres com nada em comum - até que, de repente, elas passam a ter coisas demais numa tacada só. Se isso serve de plano de fundo pra uma porção de conflitos pra fomentar a história, a gente acompanha na mesma medida o surgimento de uma das parcerias mais bonitas que já vi na ficção, um exemplo fantástico de sororidade. Ambas são mulheres fortes e admiráveis, cada uma com a sua personalidade e história, mas com o mesmo espírito criativo e corajoso, uma capacidade de ser gentil quando necessário e cuidar uma da outra. Grace e Frankie podiam ser eu e você. Eu espero que sejam, aliás.
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