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#4: Watchmen (ou: a melhor história em quadrinhos da minha vida é para adultos)

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Se a memória não me falha, o primeiro gibi que chegou às minhas mãos foi uma revista da Mônica, provavelmente datada de 1996, que continua guardada junto com outras centenas de edições que vieram parar aqui em casa depois. Ler revistas em quadrinhos foi um hábito que adquiri muito cedo e cultivei com muito gosto até hoje; mas demorou muito, muito tempo mesmo pra que meu horizonte no país das HQs se expandisse para além da produção infantil nacional. Watchmen foi possivelmente a primeira dessas histórias que despertou meu interesse, quando fui assistir lá em 2009: o primeiro de alguns filmes de herói que torrariam minha paciência alguns anos mais tarde, mas com uma atmosfera pesada e tão diferente dos lançamentos futuros da Marvel que eu jamais diria que se tratava de uma adaptação, se ninguém tivesse me contado.
A proposta do autor - Alan Moore, nosso velho comunista favorito - era exatamente aproximar a mídia dos quadrinhos de temáticas e leitores mais maduros, e ele faz isso com uma excelência tão grande que nem meu ódio pelo final da história me fez deixar de espalhar a palavra de Watchmen por aí. A adaptação pro cinema é muito próxima da escrita original, e desde o filme prometi pra mim mesma que iria ler, mas oito anos se passaram até que eu processasse a história, lidasse com o final e meu irmão comprasse essa edição e decidisse me emprestar pra que eu sofresse outra vez.
Eu diria que foi na hora certa.
No universo de Watchmen, super-heróis são reais - pessoas comuns, com identidades mascaradas, dispostas a salvar o dia e derrotar o mal. Mas em 1985, a verdadeira ameaça que paira sobre as cabeças dos americanos é uma guerra nuclear com a Rússia, pronta a explodir a qualquer instante, como bem marca o Doomsday Clock. Em 1977, uma lei restringiu a ação dos vigilantes mascarados, exigindo registro e ação regulamentada pelo governo e fez com que todos pendurassem suas máscaras e capas - exceto pelo Dr. Manhattan, um físico, vítima de um experimento que desintegrou seu corpo e milagrosamente o transformou numa entidade com poderes divinos e pelo Comediante, um antigo vigilante independente que tinha trabalhado pro governo americano. É a morte desse último que faz Rorschach, um mascarado do submundo que quer fazer justiça e não se importa em fazê-la com as próprias mãos, investigar o caso e contatar seus antigos colegas - Adrian Veidt (Ozymandias), supostamente o homem mais inteligente do mundo, herói aposentado, empresário milionário, self-made man; Laurie Juspeczyk, filha de uma antiga vigilante chamada Espectral que foi treinada desde a infância pra assumir o traje da mãe e Dan Dreiberg, criança fanática por pássaros e invenções com dinheiro o suficiente pra se transformar em Asa Noturna quando adulto.

Embora seja a ameaça nuclear que mova as ações da série, Watchmen não é uma aula de história sobre a guerra fria ou um combate entre o bem e o mal. É uma síntese da humanidade, que fala sobre escolhas individuais, sobre a nossa impotência e limitação diante das ~forças do universo~ e nos faz pensar sobre o que faz nós, ralé, tão diferente de todos aqueles que tem poder e parecem voar sobre nossas cabeças. A conclusão a que chegamos é que ninguém realmente vigia os vigilantes - o que pode ou não ser terrivelmente assustador, quando enxergamos que ninguém está imune aos vícios e fracassos. Mesmo Dr. Manhattan, o único herói com poderes sobre-humanos - o que é visto como um presente de Deus pelo governo norte-americano - sente o peso de ser um semideus, já que a sua conexão com os dramas e emoções humanas passa a sofrer uma interferência irreparável. O Dr. pode desintegrar a matéria e perceber o fluxo do tempo acontecendo simultaneamente, e diante dessa nova perspectiva de quem entende o Universo com uns dez novos sentidos, as demandas e conflitos do planeta em que ele vive e que abriga a sua antiga espécie não chamam a sua atenção ou merecem seu julgamento.
Por outro lado, a inteligência de Ozymandias e a frieza de Rorschach também colocam os outros dois, Laurie e Dan, num patamar mais humano e menos super - ambos são um homem e uma mulher fantasiados pela noite dentro de uma nave em formato de coruja, às vezes sendo piegas e irritantes com seus dramas familiares e corriqueiros, em busca de amor, reconhecimento e paz familiar. Se talvez pareça óbvia a desvantagem entre eles e o restante dos vigilantes ao longo da história, o desfecho dado aos dois ainda é o melhor, o que nos faz pensar que mesmo apesar das falhas e limitações da humanidade, vivê-la ainda parece a melhor escolha, aquela com maior chance de dar novos sentidos à vida quando ela não dá certo (pelo menos quando você ainda sobrevive). No caso de Veidt, Rorschach e Dr. Manhattan, a posição onde eles se colocam é um pouco mais exigente quanto ao resultado final: ser super não tem muita tolerância pra falhas; e se graças aos seus talentos você está acima dos perigos que os reles mortais representam, são as exigências internas pra manter integridade moral digna de um herói que podem ser danosas. No final das contas, eu não sei se existe muita diferença.
Ao contrário dos gibis de super-herói, com heróis e vilões perfeitamente delineados, Watchmen não entrega nada igual a isso - mesmo o Comediante, que morre nas primeiras páginas, vai mostrando mais camadas do que gostaríamos de saber acerca de um homem que a princípio se vende como bruto, macho e perigosamente sarcástico. Nada é preto no branco, nem mesmo a máscara de Rorschach e suas dezenas de interpretações. Ele e Ozymandias talvez sejam os melhores candidatos ao posto de super-herói da história, mesmo que ainda estejam longe demais da perfeição - ou sequer de opiniões unânimes entre os fãs. É aí que Alan Moore acerta magistralmente quando se propõe a falar de heróis e usar as histórias em quadrinhos pra conversar com o universo dos adultos: não é uma história para acalmar nossos medos e incutir valores em ninguém. É a história do ser humano, falando sobre como tá todo mundo mal e como podemos sobreviver a isso. Não existe um final feliz, como Dr. Manhattan faz o favor de lembrar os leitores de que nada acaba realmente. Não há respostas certas nem prêmio para quem acertar mais, mas existem as respostas erradas - e o peso delas vai ser cobrado de alguém.
Watchmen é uma história sobre, entre outras coisas, como a humanidade é preciosa e como aceitá-la, com falhas e tudo, pode nos salvar de responsabilidades e consequências grandes demais (e sobre como, às vezes, a gente só quer um herói da Marvel pra nos salvar, ainda que só na fantasia). Não tenho muitos livros no rol das minhas leituras que deveriam ser universais, mas esse é um deles - é, ainda por cima, um daqueles livros que vai te fazer discutir no bar, debatendo os possíveis desfechos como se aquele fosse uma obra super gabaritada ao invés de um gibizão. Watchmen é algo que foge dos dualismos sendo as duas coisas ao mesmo tempo: valeu por essa, Alan Moore.