Pra você que não conhece a série, estamos na Inglaterra em 1912. Downton Abbey é propriedade da familia Crawley e Robert, conde de Grantham, tem três filhas que não podem herdar sua propriedade ou seu dinheiro. Mary, a mais velha, está ~prometida~ para Patrick, filho do futuro herdeiro de Downton, mas ele e seu pai morrem no naufrágio do Titanic, logo no início do primeiro episódio. Quando a família é informada de que, além da perda familiar, outro herdeiro dos Crawley - um parente distante e desconhecido - é quem vai herdar a casa, a propriedade e o trabalho da vida toda de Robert, Mary se apresenta a nós insatisfeita com o fato de ter de vestir luto porque detesta preto.
Sybil, a irmã caçula, é amorosa e decidida; e Edith é a irmã do meio, modesta e recatada, deixando claro nos primeiros minutos em cena uma evidente sua rivalidade com a mais velha. A primeira impressão que temos de Mary é a de uma jovem mulher privilegiada e arrogante, que não se importa com nada ou ninguém além dos seus interesses - mas Downton Abbey é uma série com personagens complexos e bem distante de caricaturas unidimensionais. O antagonismo entre Mary e Edith se arrasta até o final da série, e é fácil cair na armadilha de enxergar uma das duas como representante dos mais altos valores e a outra como uma degenerada moral. Mary é cheia de si e não tem medo do sexo oposto -características que cem anos depois ainda temos a tendência de associar com mulheres más e perigosas - e se somarmos a isso sua facilidade para jogar a verdade na cara das pessoas sem se preocupar muito com os sentimentos delas, já temos uma personagem odiar e torcer pra que todos os males recaiam sobre ela. A própria personagem incentiva essa percepção e gosta de ser vista assim, mas nesse blog nós servimos à lady Mary e eu estou aqui pra defender essa pessoinha maravilhosa e incompreendida, ainda que ela não precise.
O recato de Edith não é genuíno; ao contrário do que vemos nas gentilezas de Sybil. Desde o primeiro episódio ela deixa o ressentimento que sente por Mary transparecer, irritada com seu desprezo pelo luto - e no início, parece que toda a sua vida gira em torno da irmã. Mary é bonita, esperta e a filha mais velha, com um casamento ~arranjado~ com o primo que Edith ama. Ela é recatada porque... é o que sobrou. Mary é excelente em ser ela mesma, flertando com os ocasionais #partidões que vem pra Downton com uma autoconfiança invejável, conversando com os convidados sempre eloquente e com uma resposta espirituosa; então competir com ela está fora de questão. Edith ocupa esse lugar disponível de filha dedicada ao lar porque, no início da série, ser a senhora Patrick Crawley e governar Downton parecia a única carreira de sucesso para as irmãs, e se ela não pode ser isso, então não há mais nada com o que ela possa ser feliz. Durante as temporadas, vamos descobrindo que isso não é verdade, e Edith tem um desenvolvimento maravilhoso quando pode, enfim, tomar as rédeas da própria vida e sair da sombra da irmã, enxergando seu próprio potencial para ser feliz à sua maneira - e é nesse momento que as duas podem considerar uma trégua.
Mary não é a vilã responsável pela infelicidade da irmã, mesmo apesar de algumas condutas reprováveis (que, no caso, ela também é capaz de revidar muito bem). É importante entender Edith para vermos que Mary não é a vadia manipuladora que a irmã alega - dois adjetivos muito mais precisos, usados por dois personagens da série em momentos distintos para se referir a ela, são bully e covarde. Sua fachada sem sentimentos é intimidadora e estranha, mas Mary Crawley não é uma mulher má porque sim. Ela tem sentimentos, mas lidar com eles, expô-los e assumi-los é assustador demais - porque bem, ela é uma mulher nobre.
Uma das coisas que mais me fascinaram na série é a nobreza dos Crawley diante de dificuldades que precisam ser resolvidas; seja a vinda do novo herdeiro para a propriedade, os problemas de dinheiro para a manutenção de Downton e uma ou outra chantagem que é feita por alguém pelos motivos mais variados. Enquanto eu, diante dessas situações, certamente fecharia a cara, choraria em público ou até xingaria; os Crawley dão sorrisos perfeitos e garantias inabaláveis de tranquilidade, deixando tudo de desagradável pra ser discutido em casa, a portas fechadas, muitas vezes ocultando isso de boa parte dos membros do clã. Robert e sua mãe Violet (que é simplesmente a melhor personagem da vida) são excelentes nesse papel de liderar a comunidade; o que me faz refletir que por todas as razões do mundo, os Crawley merecem aquela mansão estapafúrdia e centenas de acres de terra sobre os quais cobram aluguel: eles são o ponto de apoio do povoado, navegando os mares bravos com o semblante de quem tem certeza do que está fazendo, mesmo que nem sempre a tenham. Calma psicológica (e talvez vocês saibam por experiencia própria) é um recurso valiosíssimo, e dentre as irmãs Crawley, é Mary quem é mestra em dominar suas emoções. Ela sofre em silêncio, chora quando ninguém está olhando e tem plena consciência do que está fazendo e do que deve ser feito, enquanto Sybil derruba os pilares da aristocracia sem nem querer saber e Edith tenta destruir famílias ou põe fogo na casa. É essa impassibilidade que faz dela uma grande confidente do pai para todas as questões da família, e é isso que a deixa preparada pra segurar as rédeas de Downton; uma responsabilidade enorme, como seu pai destaca desde o episódio 1. Em The Crown, diante da morte do rei e do anúncio oficial de Elizabeth como a Rainha, ela recebe uma carta da avó lembrando-a que a coroa sempre deve vencer, e Mary é a mulher que tem a capacidade de colocar a coroa acima dela mesma. Ser a senhora de Downton pesa, e é para isso que ela se preparou.
Mary Crawley é uma covardona com uma força admirável e uma bully com um coração de ouro. Se ela tem seus momentos ruins com Edith e paga de coração de pedra para seus pretendentes, algumas pessoas da casa a conhecem muito melhor do que ela demonstra com seu sarcasmo e reviradas de olhos por aí. Carson, o mordomo e Anna, empregada e dama de companhia, são as maiores evidências de que por trás dessa fachada existe uma mulher que merece não apenas admiração ou medo, mas amor e carinho. Se a Violet é a melhor pessoa da série, precisamos concordar que Anna é aquela com o melhor coração, e mesmo apesar de a posição social não fazer das duas melhores amigas e sim ama e senhora, Mary não precisa sentar-se à mesa com ela e tomar chá pra ter empatia pela mulher que trabalha todos os dias ao seu lado. É impossível não gostar de Anna, essa personagem que mesmo apesar dos maiores perrengues vê a vida de maneira positiva, sem deixar transparecer mágoas, raiva ou derrota. Talvez seja pela honestidade no trato com ela que Mary se afeiçoa tanto à Anna, fazendo muito alem por ela do que seu papel de lady requer, forjando uma relação de cumplicidade com a criada. Isso, obviamente, sem falar no amor - eu não quero dar spoilers pra quem não assistiu (assistam Downton, gente), mas Mary tem toda a disposição pra ser uma romântica sofredora, abrindo mão da própria felicidade quando considera que a pessoa amada vai encontrar tudo aquilo e muito mais nos braços de outra pessoa. Ela é enfermeira, fazendeira e negociante se preciso for, e não tem medo de se sujar pra ter o trabalho bem feito - embora, obviamente, como uma nobre rica, ela prefere ficar sentada na sombra só olhando. Mas não é o que todo mundo prefere?
Em um episódio, Violet diz a Mary que a falta de compaixão pode ser tão vulgar quanto o excesso de sentimentalismo - é um dos muitos preciosos momentos de sabedoria dessa personagem sensacional que só diz verdades. Ela é muito realista, o que na maior parte do tempo consegue usar a seu favor para lidar com as situações da melhor maneira possível, mas a frieza que serve muitas vezes de barreira para manter o autocontrole afasta e magoa as pessoas que ela ama; e se talvez o dilema de sua irmã do meio seja descobrir o que ela pode ser, o seu seja aceitar a sua fragilidade. Durante a série, Mary vai se permitindo aos pouquinhos sentir mais - e fica muito claro como as emoções mais intensas parecem ser capazes de aniquilá-la por inteiro, como acontece logo depois do famigerado especial de Natal da terceira temporada; então é difícil culpá-la por tentar se proteger. Tom e Matthew são dois personagens que aparecem na vida dela e, apoiando-a constantemente, vão mostrando a Mary que envolver-se emocionalmente e deixar os sentimentos aparecerem tem lá suas vantagens.
Além de tudo isso, lady Mary é maravilhosa ao quebrar convenções o tempo todo - cortando o cabelo, se interessando por negócios, ou se relacionando com o sexo oposto de maneiras que deixariam a avó de cabelo em pé. Ela é uma mulher jovem e rica e, ao invés de se deixar ser arrastada pelo peso da sua posição social, frequentemente usa seus privilégios pra desafiar as coisas, ainda que só faça isso pelo bem dos seus interesses. Ela não é uma militante subversiva como a irmã, mas tampouco lhe interessa ser um bibelozinho nas mãos de um marido que lhe dite todas as opiniões. Mary tem poder e gosta disso, e é delicioso assistir uma mulher há cem anos que pisava no patriarcado como podia, sem nunca perder a pose.
Meu maior objetivo de vida é ser essa mulher linda, inteligente e detentora do título de mulher mais bem vestida das séries de época. Aceitem meu conselho e vejam Downton Abbey!!!













