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Sobre enigmas, lencinhos e estupradores

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(Roubado da página da Carol Rossetti lindona)

Quando pensei em sentar e digitar um texto com a minha opinião sobre o caso do estupro que deixou todo mundo estarrecido, parte de mim tentou me dissuadir dessa ideia: "Menina, por quê? Quem é você na fila do pão pra falar disso? Cê acha que tem algo a dizer que realmente acrescente na discussão?" e pra ser sincera, eu não sei - mas decidi sentar e falar assim mesmo.
A primeira coisa que pensei, quando a notícia me atingiu, foi sobre quando é que nós, mulheres, perdemos o direito de decidir sobre os nossos próprios corpos - com essa outra parte cética do meu cérebro me dizendo que nunca tivemos esse direito de verdade. De mercadorias a casamentos arranjados, o nosso papel era obedecer. E quando chegamos à era moderna, criamos constituições, vamos pra universidade e fazemos estudos sobre gênero, queimamos sutiãs e pilotamos aviões, nós esperamos provar que podemos ser senhoras de nós mesmas - e até somos, com uma exceção. 
O sexo. O desejo. A nossa opinião sobre nosso próprio corpo não vale nada.
Violência sexual me é um assunto muito delicado e foi impossível não me colocar no lugar da menina que sofreu tudo isso. A maior dor de uma situação dessa não é a violação física - é a violação da nossa vontade, do nosso direito enquanto pessoa de decidir sobre si mesma, de posse sobre nós. Ficamos ali como um mero objeto de satisfação sexual: às vezes inconscientes e quietinhas como bonecas infláveis, às vezes gritando e chorando, tentando lembrar àquele outro que também somos humanas e não queremos estar ali. Nosso corpo é invadido e nosso desejo é massacrado, enquanto a pessoa que está ali acredita piamente que você quer/precisa/merece aquela relação sexual.
A humanidade falha nessas horas. É quando deixamos de lado a linguagem em prol da brutalidade dos instintos - uma coisa que a gente tem tentado evitar desde que resolvemos nos reunir em forma de civilização.
É preciso reafirmar isso: a figura do estuprador como o maluco armado num beco é um mito muito conveniente, que tranquiliza os homens que pensam que não tem nada em comum com essa figura psicótica. A realidade não é essa: o estuprador pode ser um tio, um vizinho, um colega do futebol, um professor, um marido, um ex-namorado. Assusta? Muito. É feio? Demais. Mas basta acreditar que você tem direitos irrevogáveis ao sexo e que sabe mais do que a outra pessoa sobre a vontade dela pra se tornar um em potencial. A gente ouve as desculpas manjadas de sempre: "ah, mas ela tava usando uma roupa curta demais" "ela tem filho nessa idade, não era santa" "ela me beijou, passou a mão e na hora quis pagar de casta" e esse tipo de coisa. "Ah, ela disse que não mas era só joguinho". O esforço dos homens em decifrar o que tentamos dizer é uma coisa admirável, especialmente se considerarmos todos os séculos em que ficamos proibidas de dizer sim pro sexo sem ficarmos vistas como vagabundas sem valor nenhum. Fomos historicamente colocadas nesse lugar, o de derrubar lencinhos e dar esbarrões acidentais pra comunicar sem palavras o nosso interesse. O problema é que, quando deixamos pro outro a responsabilidade de decidir por nós, corremos o risco de ser mal entendidas. Nós tornamos objetos - bibelôs esperando ser tomadas. É por isso que eu decidi escrever esse texto: a linguagem está aí a meu dispor, e é meu dever usá-la pra dizer o que eu quero.
Breaking news, humanidade: é 2016 depois de Cristo e temos as palavras sim é não a nosso dispor. É hora do sexo masculino largar a desculpa do instinto e se ater às regras da civilização de uma vez: nós, mulheres, não somos mais objetos. Somos sujeitos, tais como vocês. Podemos comprar brinquedos sexuais - podemos até nos relacionar com outras mulheres - e não precisamos dos seus órgãos pra satisfação ou cura de qualquer coisa, a menos que a gente realmente queira. Podemos usar vestido curto, dançar sozinhas, ir embora bêbadas e derrubar lencinhos sem que isso signifique um convite pra nada. Estar em um relacionamento estável não te dá "direitos" a nada. O preço da civilização é esse, mas sempre existe a alternativa de se organizar em bando e lutar até a morte pela liderança dele, caso você goste de ~ouvir seu instinto de macho~. Nós temos voz e temos que aprender a usá-la, e vocês têm que aprender a escutar: "sim" significa sim. "Não" significa não. Não precisamos ser decifradas: a gente precisa que a humanidade finalmente entenda que ignorar o consentimento de alguém é de uma barbárie imensurável.