No primeiro semestre desse ano, a Netflix colocou no catálogo deles mais uma série original: Anne with an E, uma história inspirada no livro Anne of Green Gables, da Lucy Maud Montgomery; que eu tinha mencionado aqui no blog superficialmente quando mostrei as fotos da coleção Puffin in Bloom; Na época, Anne era o livro mais desconhecido dentre aqueles quatro volumes e por isso, optei por deixá-lo pro final nas leituras.
Anne Shirley é uma menina órfã que vai parar por engano em Avonlea, uma ilha canadense cheia de terras cultiváveis, árvores estupidamente frondosas e raios de sol brilhando em todo lugar. Anne encontra Matthew Cuthbert na estação, esperando-o como seu novo pai, sem saber que ele e sua irmã tinham solicitado que o orfanato lhes enviasse menino que pudesse ser útil para os dois nas tarefas diárias da fazenda onde mora. Ela não pára de falar nem por um instante quando os dois se encontram, deslumbrada com a ilha e cheia de ideias pra compartilhar sobre seu novo futuro e sua história de vida até ali. É a irmã de Matthew, Marilla, que desfaz o mal-entendido logo no início da história e traz a menina ruiva de volta à realidade na qual vive e da qual escapara tão facilmente.
Esse primeiro conflito que Anne encara; a quebra das expectativas fantásticas que ela havia criado tão rapidamente sobre morar ali e ser parte daquela família - porque ela é uma mestra em criar fantasias - já nos coloca em contato com um lado muito marcante da personagem: ao mesmo tempo em que é uma menina adorável e sensível, ela também é dramática e difícil. Mesmo sendo uma história pensada para o público infantil, Anne e sua jornada cativam qualquer um; especialmente pelo fato de que, embora só exista na tela e nas páginas, as sensações que ela nos causam são incrivelmente, dolorosamente reais.
Não costumo gostar de adaptações quando se trata de algo que eu já conheci e amei, mas a série, que difere do primeiro volume (é uma série de seis volumes no total, acompanhando Anne desde os 11 até os 40 anos) em alguns aspectos da história, é bastante fiel no sentimento que quer passar para o público: ela é uma criança com uma história triste, tentando desesperadamente se agarrar à felicidade em todos os lugares que pode encontrá-la. É impossível não se sentir contagiado pelo espírito imaginativo de Anne, pelo seu amor por palavras gigantes, vestidos pomposos e brincadeiras de faz-de-conta que nos recordam da nossa própria inocência e fantasias infantis; assim como é muito difícil não se identificar com os momentos tristes e as emoções intensas, mesmo sem ter se aproximado das vivências dela na vida real.
Anne é uma história pela qual me apaixonei sem nunca ter ouvido as recomendações exaustivas que a gente recebe hoje em dia, por todas as redes sociais, quando algo conquista a audiência. Antes da Netflix lançar sua versão, a história tinha pouca projeção por aqui - aparentemente o livro não é muito popular, então foi como descobrir um tesouro escondido assim como os que a Anne enxerga nos lugares mais recônditos de Avonlea. Sem nenhuma expectativa inicial, a história tem uma pureza que nos atrai e consegue trazer à tona nossos sentimentos mais delicados e vulneráveis, aqueles que dificilmente deixamos transparecer no nosso cotidiano, no mundo duro e cruel. Envolver-se com essa menina é dar um pouco de voz a uma parte nossa que não tem medo de ser sentimental - Anne sofre e não sabe esconder isso de ninguém, mas a maneira como ela consegue enfrentar sozinha seus grandes medos e se manter fiel a ela mesma, ainda que ninguém pareça estar a seu lado, faz com que ela pareça uma rainha guerreira ao invés de uma estudante do interior. Ela é uma menina com um coração imenso e que transborda gratidão, mesmo quando o mundo não parece merecê-la; e eu a vejo como uma inspiração enorme. Sua maneira de viver cativa as pessoas ao seu redor - Matthew, Marilla, a amiga Diana, todos são personagens que passam a ter suas vidas tocadas pela sensibilidade da garota e se vêem descobrindo cada vez mais tesouros escondidos por onde Anne os leva a olhar.
A série da Netflix coroa tudo isso com uma fotografia maravilhosa, que combina perfeitamente com a história. Essa não é a primeira adaptação pra TV da história de Anne Shirley, mas realmente achei que não poderia ter sido melhor. Recomendo a todo mundo conhecer a história, pelos livros ou pela TV - é o tipo ideal de coisa que promove na gente um coração quentinho e um pouco mais de esperança e coragem pra viver. Se os Cuthbert não a tivessem adotado, eu certamente adotaria. Pra quem ainda não viu, ta aí a dica de mais uma mulher fantástica pra gente amar (com rostinho de menina sardenta). ♥
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quando vi essa série no catálogo, eu nem dei muita importância, não conheço o livro que ela é baseada. mas tenho lido muitos posts falando super bem, além de ver algumas imagens da série e AMAR as cores que usaram, os lugares que aparecem... enfim, quero muito assistir ♥
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