Atrás da cortina

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Já faz quatro anos que toda semana, quase religiosamente, pego um ônibus, boto meus fones de ouvido durante uma hora de viagem e desembarco a algumas quadras do consultório da minha psicóloga. A tabela de horários de ônibus sempre me obriga a chegar 40 minutos antes, que passo sozinha na sala de espera, ouvindo música, twittando a respeito das misérias do dia ou lendo; até que ela chegue (sempre pontualmente) pra me atender. Há pouco menos de um ano, ela comprou um divã novo: roxo, gigante, e sugeriu que eu passasse a me sentar ali.
Se eu contasse quanto tempo passei acomodada em divãs menos confortáveis, poltronas e até uma cadeira dura no ambulatório da faculdade, seriam mais de dez anos. Pelas minhas contas, é quase metade da minha vida sendo apresentada em relatos semanais de cinquenta minutos, quase a totalidade deles seguindo a regra do "fale o que você sentir vontade". Mesmo na época de adolescente, nunca tive muita dificuldade em cumprir com esse combinado; em acreditar na pessoa da cadeira da frente dizendo que aquele era o espaço em que eu tinha pra ser quem quisesse. Hoje em dia eu faço isso com maestria, quase sempre começando com "então..." e partindo pra uma sequência incessante de palavras, frenética o bastante pra talvez me dar um lugar no elenco de Gilmore Girls.

Deitada no divã roxo e descalça (um hábito relativamente recente, que começou depois de ouvir que eu "precisava me apropriar do espaço que ela oferecia"), eu começo a falar. Algumas semanas são boas, outras são horríveis; alguns dias chego com um discurso pronto e cheio de insights no qual pensei durante toda a semana e em outros, nada parece importante o bastante pra ser dito. Eu falo mesmo sem o fazer,  nos dias em que me sinto frágil demais e não consigo abrir minha boca por dez minutos seguidos; e a terapeuta entende.
Ela não faz conversa fiada pra amenizar o silêncio esquisito. Não faz cara feia pros meus palavrões, nem se assusta quando a raiva que eu sinto é tanta que me faz gritar (e às vezes, arremessar umas coisas pelo ar). Ela parece serena sempre, bem-humorada mesmo nas piores horas. A terapeuta ouve as piores partes de mim sobre as quais eu consigo falar, e se elas me apavoram a ponto de a caixa de lenços ter alguma utilidade; do outro lado a atitude dela me faz sentir que aquilo ainda não é tão ruim.
Ela também faz terapia, aliás. Eu dou graças a Deus por isso.
As razões que eu poderia dar pra um processo terapêutico tão longo são várias; desde o trabalho, passando pelo "se conhecer melhor" até uma lista detalhada de cada desgraçamento de cabeça que eu ainda tenho. A verdade é que eu faço terapia porque eu posso, porque esse é um dos 5 melhores investimentos pro meu dinheiro - e se algumas dezenas de milhares de reais viagens pra Europa ficaram nas mãos da minha terapeuta, eu me consolo sabendo que a versão de mim que tivesse esse dinheiro ainda não teria capacidade psíquica pra fazer as malas e subir num avião. A terapia é onde eu posso ser a pessoa mais honesta comigo mesma, mesmo quando isso dói demais; é um ninho onde a terapeuta me empresta a calma dela pra eu chocar minhas próprias soluções.
Não é fácil, muito menos prático e rápido, como outras fórmulas de bem-estar dizem ser. Não é incomum que os cinquenta minutos às vezes pareçam 25 e eu passe semanas presa num assunto - ou meses ao redor de uma mesma questão tema, pra resolvê-la e descobrir que a camada que estava por baixo é mil vezes pior. Há dias em que minha terapeuta fala com todas as letras verdades odiosas e eu saio quase sempre de óculos escuros pra esconder o choro, que às vezes se arrasta pelo trajeto do ônibus, enquanto meu iPod no último volume repete The Smiths ou a playlist pra anestesiar aquele vazio horroroso que vem depois da choradeira. Tem manhãs que me arrasto pra fora da cama me questionando porque é que eu continuo fazendo aquilo, quando podia ter mais umas horas de sono ao invés de passar horas infinitas no transporte coletivo, mas costuma ser nesses dias monótonos que o inesperado acontece e eu tenho insights maravilhosos que jogam um facho de luz nos meus pensamentos sempre tão confusos e tudo parece fazer sentido - em caps lock, com direito a muitos pontos de exclamação.
(É óbvio que questões ainda maiores vão aparecer depois, mas isso é outra história, risos.)
São dias como esses em que eu consigo ter uma visão de relance do que é que existe por trás da cortina imaginária que existe na minha mente pra manter meus mistérios longe dos olhos, e só o esforço conjunto meu e da terapeuta consegue mover: coisas terríveis, medos inomináveis, pessoas do passado que eu jurava que tinha superado mas ainda estão por ali em algum lugar, me assombrando e fazendo soar o alarme de emergência que às vezes dispara. Mas é por ali que eu consigo ver também uma versão melhor de mim: uma versão mais corajosa, mais gentil consigo mesma e que não tem mais medo de dizer que odiou o filme que todo mundo amou ou de assumir que adora bandinhas adolescentes; uma versão que pôde olhar pra tudo de mais assustador que há dentro de mim e não entrou em pânico. É uma versão de mim com quem eu sei que adoraria conversar e que sabe que força e vulnerabilidade coexistem o tempo todo; alguém que é capaz de pedir ajuda sem medo e que é capaz de se virar sozinha. Eu faço terapia porque eu posso querer olhar por detrás dessa bendita cortina, e espero que um dia todo mundo possa também.


PS: Sim, eu estou voltando depois de um hiatus sem a menor justificativa, na maior cara de pau. NÃO DESISTAM DE MIM POR FAVOR

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  1. Que texto incrível! É maravilhoso poder se autodescobrir. Pra mim, nossa jornada não faria sentido se não passássemos por esse processo. <3

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    1. ai Dani, fico feliz que voce tenha gostado do post ^^ se autoconhecer é ótimo, apesar do ocasional sofrimento. o conhecimento é bom demais!!

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  2. Gente que lindo <3 Fico feliz de isso te ajudar tanto. Eu sempre quis ir em um psicologo, mas nunca tive coragem. Um pouco por medo de ser julgada, um pouco pelo que talvez eu descubra. Acho que seu texto me ajudou a tomar coragem e tentar.

    Ah, e bem vinda de volta! Saudades!

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    1. Obrigadaaaaa Naty <3 é muita cara de pau minha sumir assim, mas VOLTEI hauhaua
      Fico contente de ler isso! Olha, é sem duvidas a melhor decisão que eu já tomei na vida em termos de qualidade de vida. Recomendo que todo mundo faça isso, sem reservas hehehehhe (#doidadaterapia)
      :***

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  3. não desistimos e só ♥ por esse texto.

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    1. K <3 que bom saber que cê não desiste mesmo, e QUE BOM que vc gostou do post <3 to muito atrasada com as leituras do seu blog, mas TENHA PACIENCIA COMIGO PFVR pois nao esqueci de voceeee hahaha
      :*

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  4. Olha, eu acho um tanto deprimente falar isso, mas minha psicóloga virou minha melhor amiga. Virou, ue, não posso fazer nada. Eu me sinto bem lá pra falar mal dos outros e despejar as merdas da minha vida em cima da mesa (mesmo que não exista uma mesa no consultório). E ela já me viu chorando durante uma crise de sinusite e não desistiu de mim (nem demonstrou nojo). Aliás, tenho vontade de fazer psicologia só pra entender como ela consegue reprimir a cara de nojo ou suas próprias opiniões enquanto fala comigo. Cara, eu espero que ela não seja religiosa, porque a quantidade de piadinhas infames usando Deus que eu fiz no consultório davam pra lançar um livro.
    Eu me sinto melhor quando vou e não deixo de ir. Deixo de comprar sapatos novos, mas não deixo de ir. Deixo de comprar até livros. Porque não adianta ter sapatos e livros se você não tem força pra andar nem poder de concentração pra ler. Todo dia que eu sento no sofá e choro é uma alegria. Todo dia que eu não choro, é um dia vencido. Quase um sinal, como se tudo fosse dar certo. Uma hora vai dar, né?
    Acho que vou fazer um post de 5 melhores investimentos pro meu dinheiro, inspirado nesse post. A psicóloga vai estar na lista. Se vai.

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  5. Natália, obrigada por esse comentário <3 é exatamente o que eu sinto com a minha também. Choro, me descabelo, falo um monte de abobrinha e sinto que ela segura todas e tá sempre ali, segurando a famosa luz no fim do túnel. E no meio do caminho ainda RI! Invejo demais essa serenidade, mas sinto que to no caminho de adquiri-la. Uma hora a gente vai ficar melhor, sim (já tá ficando, tenho certeza)
    e faça esse post, quero saber quais são os outros (os meus envolvem títulos da divida externa e ações da Tesla Motors HAHAHAH) :***

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