#17: A tal da magia do esporte

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Ou: porque eu amo o futebol feminino
Ou ainda: a melhor coisa que aconteceu na minha adolescência

Então teve a vez que eu entrei pro time de futsal.
Melhor dizendo: aos doze anos, eu - a menina que sempre tinha odiado a educação física - coagida pela paixão da minha melhor amiga da época pelo esporte, ajudei a inaugurar o time de futsal do colégio. Nós precisávamos de um número mínimo de meninas, éramos três desconhecidas da sétima série e nem sabíamos se teria um horário disponível na quadra. Arrumamos as meninas. Treinávamos a princípio de sexta à tarde e sábado de manhã. Veja bem: Pra você tirar um adolescente da cama num dia sem aula, ele precisa QUERER. E não é pouco.
A gente queria.
Nosso primeiro jogo no campeonato da cidade foi um verdadeiro horror: perdemos de quatorze a zero. A gente treinava há pouquíssimo tempo e não tínhamos uma goleira - a gente mal tinha tênis e meião, risos - porque, pra ser honesta, nunca tivemos uma goleira de verdade em toda a nossa existência. Nos quatro anos que joguei, nosso time entregava resultados decepcionantes - melhores do que esse primeiro placar, mas ainda assim, decepcionantes - as vitórias só vieram mesmo no ano em que saí da escola, o quinto (e último). Demorou um pouquinho.

SÓ AS CRAQUES -n
Sobre isso, preciso falar: eu era uma adolescente nervosa e competitiva demais, e ODIAVA perder. Eu me cobrava. Chorava e gritava. Eu era, assim, meio descontrolada. Tinha potencial pra ser uma tragédia, mas o futsal me rendeu os melhores momentos da adolescência. Se de um lado eu era essa criatura com zero espírito esportivo, a gente tinha um professor com paciência de sobra: pra lidar com os ataques de fúria desta que vos escreve, o desinteresse de algumas alunas que só apareciam pra jogar na época dos campeonatos (those bitches), a falta de campeonatos disponíveis, nossa inaptidão óbvia e falta de conhecimento da coisa. Ele botava fé naquele bando de adolescentes despreparadas, mas que davam um valor absurdo pros treinos e palavras dele e eram cabeça-dura demais pra abandonar o barco.
Pra compensar a falta de gols, a gente tinha muita raça.
O futsal foi mágico: ali eu fiz amigas de verdade pela primeira vez desde a pré-escola; dividi coca-colas na praça, gelol, fones de ouvido, lágrimas de frustração e piadas internas. Viajamos pra alguns cantos e dormimos amontoadas em colchonetes, saboreando empates como se fossem títulos, aprendendo as melhores musiquinhas de torcida e correndo o máximo que a nossa capacidade aeróbica permitia, tentando conduizir a bola, fazer os passes certos de cabeça erguida e descobrir o melhor momento de chutar. Nem sempre dava certo, mas sempre era maravilhoso - eu me sentia em família entre as meninas, meio convencida de que a gente tinha feito nosso melhor (ainda que não fosse o suficiente) e que perder não era tão ruim assim, quando a gente estava cercada de gente bacana e uma vontade inesgotável de tentar de novo.
Aí veio a seleção feminina de futebol, e foi inevitável me apaixonar por aquelas mulheres que tinham a capacidade brilhar com a bola no pé.
A seleção feminina é maravilhosa, a gente precisa admitir. A gente sabe que o futebol feminino tem pouquíssimo espaço nessa terra brasilis, mesmo a gente tendo a alcunha de país do futebol - que na realidade, significa quase que exclusivamente transmissões da série A do brasileirão e seu futebol horrível de onde saíram os responsáveis do famoso episódio do 7 a 1. Não existe espaço na mídia pros jogos femininos, quase não existem treinos de base, divulgação do esporte e patrocínios pra que a gente tenha ligas, peneiras e meninas pra abrilhantar uma seleção nacional. Nem todas as meninas podem se dar ao luxo de viver como atletas, ainda que a gente tenha atestado a qualidade do futebol delas. Não é fácil fazer aquilo, e elas podiam desistir. Não desistem - assim como, dez anos atrás, eu e as minhas amigas não desistimos do esporte depois do nosso primeiro jogo horrível. A gente queria jogar. As meninas do futebol também, e elas estão dispostas a dar o melhor de cada uma.
E, meus amigos, acho que a magia do esporte é justamente essa.
Troféus, medalhas, títulos e frangos na Hope Solo são triunfos maravilhosos, mas suspeito que a coisa que é realmente o motor do esporte é essa cafonice que a gente chama de amor. Amor à camisa, amor pelo cansaço e pela superação, por sentir que você fez o seu melhor, que está cercada de atletas incríveis e pode corresponder à altura. O sentimento de conquistar algo novo e de se entregar ao máximo. De não desistir e seguir acreditando que é possível fazer alguma coisa. De fazer um jogo limpo e justo. Perder é horrível, deixa a gente com um gosto ruim na boca e vociferando uns palavrões contra o time oposto por um tempo, mas não é tão ruim quando você sabe que fez o que podia, aprendeu as lições do professor, viu todo mundo jogando em equipe e tentou.
Alguém tem que perder, e às vezes vai ser você mesmo, foi o que aprendi no meio de muitas lágrimas da época esportista. Perder faz parte - se entregar, não. Nunca. E quando a gente pensa nos infinitos obstáculos que essa seleção tem que vencer - e poderia se entregar, mas não o fez em um minuto sequer, nem em campo e nem fora - a gente pode acreditar nessa tal magia do esporte.
YOU GO, GIRLS!

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