amo elizabethtown e vou protegê-lo

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Eu começo pedindo desculpa se você assina a além da nuvem nove, porque estou publicando o texto que saiu na news número três aqui. Quando inventei essa brincadeira, não pretendia deixar o blog de lado e muito menos reproduzir as coisas que escrevia lá aqui, então não percam a fé em mim, que vai sair post novo aqui sim. Eu juro. (Mas estou passando por ~momentos difíceis~, então bear with me.)
Ocorre que Digníssimo achou esse texto nada menos que ~genial~ e achou que eu deveria postá-lo aqui. Claramente sou muito suscetível à opinião do menino  sobre o que eu escrevo, então, por que não? Vai que mais alguém acha genial também, boto fé.

Essa semana me senti muito Drew Baylor. Você já assistiu Elizabethtown? Talvez você conheça o filme como a origem da personagem que gerou o conceito de Manic Pixie Dream Girl. Talvez você não conheça o filme porque não tem tempo a perder com nada com menos de quatro estrelas no IMDb. Talvez você ame odiá-lo, como a gente do país da internet costuma fazer com um monte de coisa. Eu, pessoalmente, só dei uma chance praquele DVD na locadora, há anos atrás, por uma razão: Orlando Bloom, a minha crush dos anos 2000.
A Anna Vitória escreveu na newsletter dela essa semana sobre a importância de abraçar os sentimentos que as coisas despertam na gente, acima da técnica e do cacife intelectual por trás de cada coisa, e é preciso que vocês saibam que a pessoa escrevendo essas correspondências é uma defensora irrevogável desse ponto de vista. O filme não é essa coca-cola toda? Não. Mas não tem nada no mundo que me faça deixar de proclamar Elizabethtown (ao lado de Mulan [e Mamma Mia]) como o meu filme preferido da vida, porque Orlando Bloom interpretando o designer que protagonizou um fiasco e Kirsten Dunst como a mocinha que só serve pra fazer com que ele encontre a felicidade me despertam um caminhão de sentimentos, ao ponto de cantar, sorrindo e chorando e dançando com uma mão abanando pra cima ao mesmo tempo.
Drew falhou na vida.
Ele foi demitido. Passou anos se dedicando a um projeto que deu espetacularmente errado. Levou um pé na bunda. Sequer conseguiu se matar com estilo - e aí ele descobre que o pai dele faleceu e que ele foi o eleito da família para ir lá pro Kentucky decidir os detalhes sobre o funeral. É claro que no meio do caminho ele encontra uma aeromoça especial que muda o rumo da vida dele, etc etc etc, mas quem seria Drew Baylor sem a mocinha que faz o melhor mapa de road trip da história? Um grande fracasso frustrado.
E é impossível não se sentir meio Drew Baylor em uma semana em que todos os meus eletrônicos se espatifam no chão e metade dos meus clientes decidem encerrar os serviços, o que significa que será impossível pagar as contas desse mês sem apelar pra ajuda superior. Não tem dinheiro pra pagar os consertos, não tem dinheiro pra pagar as minhas despesas, mas tem boletos de anuidade do conselho e da prefeitura chegando até mim como se eu fosse uma profissional cheia da renda. É nessas horas que eu coloco as mãos pro alto e digo um sonoro "EU NÃO ESTOU SABENDO LIDAR". Pagaria pra alguém resolver a minha vida, mas isso está claramente fora de questão.
Eu tenho essa impressão de que os vinte e poucos anos são uma grande reedição da adolescência que ninguém se preocupou em me alertar. O assunto que nunca se esgota entre os meus amigos é: quando é que a gente vai se tornar aquele tipo de adulto que aparece em comercial de apartamento planejado? Será que todo mundo passa por isso? E o pior de todos: "você já parou pra pensar que com a nossa idade os nossos pais tinham casa própria e filhos?" quando nenhum de nós se sente capaz de cuidar sozinho de um cachorro.
Me sinto vivendo a adolescência 2.0 porque aquele drama em que você se sente a única criatura desafortunada da face da Terra se tornou parte do cotidiano, e pior ainda: você não tem ideia de quando isso tudo vai passar. O plano não era terminar a faculdade, ganhar dinheiro, mobiliar meu próprio apartamento e viajar todo ano? Então por que é que eu ainda moro na casa da minha mãe e ainda conto as moedinhas no final do mês? Os ~adultos de verdade~ só riem do meu desespero, dizem que "o começo é sempre assim", que "são tempos difíceis pra trabalhar mesmo" e que eu preciso aprender a me manter calma que a clientela virá, o que parece quase sarcástico, quando fingir que está tudo bem e que eu estou no controle das coisas parece ser um esforço digno de prêmios.
Desbravar a nossa própria vida como adultos é algo que requer paciência e obviamente não vai dar certo na primeira tentativa, é algo do qual o meu lado racional tenta me convencer o tempo todo. O lado irracional basicamente só funciona no modo TÁ TUDO DANDO ERRADO WTF, e o meu desafio é conseguir algum equilíbrio que me permita funcionar como um ser humano normal a cada manhã.
Elizabethtown não é só um filme morno com uma mocinha quirky e um final feliz - é um filme sobre se sentir completamente perdido, no meio de uma família que você não conhece, com um trabalho que deu espetacularmente errado, enfrentando coisas que você não sabe se vai dar conta, mas que precisa fazer. É sobre tentar fazer o melhor de você com aquilo que a vida oferece no momento. É claro que a gente podia sentar e chorar até desidratar, ou deixar a ansiedade vencer e nunca mais sair de casa, mas Claire Colburn já diz que sadness is easier because it's surrender, e por mais que ela seja cheia de clichês, a gente não pode negar que ela tem razão. Então quando, no seu mapa maravilhoso, ela diz pro Drew agarrar a tristeza por cinco minutos, curtir o máximo que puder, jogá-la fora e continuar em frente, eu não posso deixar de repetir isso pra mim mesma. Sempre fui ensinada a dar vazão pros meus sentimentos e abraçar a tristeza com força, mas é preciso saber a hora de soltá-la e encarar o resto da jornada, fazer algo com a minha vida e seguir em frente - mesmo me sentindo um fiasco total.
Será que a gente pode ser o protagonista fracassado E a mocinha excêntrica e motivadora ao mesmo tempo?
É nóis, Claire

4 comentários

  1. Primeiro: realmente o texto tá demais.
    Segundo: nunca tinha parado pra pensar que o traduz nossa geração é que somos eternos adolescentes. Sempre pensei (e tem muitos textos por ai comprovando que não sou a única a pensar assim) que a gente na verdade só queria ser livre e por isso nosso timing é diferente dos nossos pais e estamos aos 20e poucos/tantos anos morando com os pais, sem nada próprio e etc.
    Parando pra pensar: adolescência 2.0 total. Mas também tem isso, de ninguém nunca ter contado essa parte da história. Parece que o mundo era um conto onde você pulava de adolescente pra alguém bem sucedido com casa, carro, cachorro e filho.
    Mas no fundo nunca fomos tão ingenuos de acreditar que era num pulo mesmo, né? E será, que mesmo com toda a confusão que essa fase da vida nos traz, é esse o futuro que queremos? Ou será que a confusão é exatamente por não ser o que queremos mas ser o que colocaram na nossa mente como 'goal'?

    Terceiro: Nunca tinha parado pra pensar tão a fundo em Elizabethtown mas achei que tudo o que você falou super tem a ver com o filme e que ele tem mais lições do que eu reparei. Talvez tenha assistido nova demais, não sei.

    Mas enfim, realmente um texto/assunto pra fazer pensar... só sei que já aprendi que não da mesmo pra sentar e chorar. Tem que desapegar e dar a cara a tapa. E olha, os tapas vão vir com gosto. Mas sei lá... acho/espero que eles nos levem pra algum lugar.

    Beijos
    A Mente Transborda
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  2. Ai minha nossa, obrigada por esse texto! <3

    Ultimamente tenho me sentido tão perdida que nenhum pensamento positivo meu tem conseguido afastar a nuvem negra de incertezas que tem pairado sobre a minha cabeça. As coisas não estão do jeito que planejei, me cobro muito e o tempo todo, e não estou sabendo lidar com a pressão que coloco em mim mesma. Só queria saber por qual motivo sou assim, aff, tão mais fácil levar a vida numa boa MAS NÃO, eu tenho que ser aquela que se preocupa. Me identifiquei com o texto inteirinho - inclusive adoro Elizabethtown mesmo ele sendo um filminho clichê mas, EI, qual o problema disso? Às vezes a gente só quer um filme em que tudo termine bem, né?

    Um beijo!

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  3. Eu queria ter te respondido por e-mail (aliás, tem dias que eu estou ensaiando te mandar um e-mail, desde que recebi sua resposta sobre uma news minha) (reflita aí o tanto que sou enrolada) (mas fica aí a intenção real, valorize isso porfa), ainda quero, mas vou adiantar por aqui enquanto não consigo fazer isso. Porque eu amei esse texto. Pra variar, queria te dar um abraço real. Eu nunca assisti Elizabethtown, uma falha enorme porque cada vez que leio sobre esse filme, tenho mais certeza de que ele seria total o tipo de filme que eu ia amar. E me identificar profundamente. Porque é claro que eu me sinto muito Drew Baylor na vida - não o tempo todo, mas com uma frequência assustadora. Pode ser que seja uma fase, pode ser que isso passe mesmo, como todos os ~adultos de verdade~ estão cansados de dizer. O começo é difícil, mas a gente chega lá, etc e tal. Mas às vezes eu me pergunto se a gente realmente chega. Se no fundo não estão todos só fingindo que tem a vida mais ou menos no lugar, que tá tudo bem. E aí que me dá um medo danado, porque eu realmente não sei lidar, e eu tenho muitos sonhos, alguns grandes demais, e tenho medo de acabar me frustrando demais. As coisas não estão saindo como planejei e confio que a vida se ajeite em vários aspectos, que ela mostre caminhos que às vezes a gente não presta atenção e que podem sim ser tão bons quanto aqueles que a gente sonha quando coloca a cabeça no travesseiro. Mas pode ser que eles não sejam tão bons, pode ser que eles não sejam suficientes, e me assusta a perspectiva de saber que porra, tô aqui, uma vida só nas mãos pra fazer um monte de coisas, e não conseguir fazer nada. É um pouco o sentimento de ser o floco de neve que não somos, mas é difícil desapegar, é difícil se olhar no espelho e dizer "tudo bem" quando claramente não está tudo bem. São muitas questões. Na adolescência eu tinha muitas certezas e acho que o maior problema da vida adulta é que, quando a gente descobre o que ela significa, a gente percebe (e por a gente, quero dizer que eu percebi) que na verdade a gente não tem certeza nenhuma, tudo cai por terra. E agora? A gente não faz a menor ideia do que está fazendo, a gente se frustra o tempo inteiro, acha tudo uma bosta, morre de medo de uma monte de coisas, quebra a cara várias vezes e se dá conta de que a vida não é exatamente o que a gente esperava que fosse, mas segue-se em frente. A gente abraça a tristeza por cinco minutos, depois limpa as lágrimas, e segue em frente, torcendo pra que tudo dê certo no final.

    beijo, e obrigada por esse texto <3

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  4. Arrasou, e o digníssimo tinha razão, ficou genial. Eu sempre amei muito Elizabethtown, e ele apareceu na minha vida, ou na minha TV, em um momento que se encaixava perfeitamente. Lembro que minha madrasta me incentivou, e disse que eu ia adorar. Na época que assisti (2007), fiquei insistindo pra que uma pessoa que eu queria que permanecesse na minha vida o assistisse também, e que aos meus olhos, estava muito desistente de ficar, já que seria difícil. Hoje eu sei que as coisas não eram bem como eu achava, e de modo surpreendente, a vida nos colocou juntos de novo. E até hoje ele não viu o tal do filme, acredita? Foi com Elizabethtown que descobri uma das minhas bandas favoritas, Lynyrd Skynyrd (aliás, que trilha sonora demais né?), que aprendi um monte de clichês que a gnt tá careca de saber, mas que não se cansa de ouvir. E te digo, é muito possível ser Drew e Claire. A Claire, é no que Drew se torna, depois que ele mesmo segue o conselho dado por ela. Pega a tristeza, segura, aproveita, e manda embora. E aí o que sobra, é otimismo e vontade de seguir em frente. Bj bj!!!

    www.eususpiro.com.br

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