#17: Aquele pro meu irmão mais novo

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Querido irmão mais novo,

Quando eu me tornei uma irmã mais velha, aos nove anos de idade, nenhum de nós soube disso de imediato - você por ainda não ter a menor condição e eu, por estar há dez mil quilômetros de distância. Tinha sido filha única até então e passado todo esse tempo sendo a única princesa de casa e do sobrado da minha nossa (até então) minha avó, enchendo o saco de todos os adultos do mundo pra brincar comigo e, quando isso falhava, inventando mil jogos sozinha. Aos nove anos, eu já estava na quarta série e tinha cansado de pedir um irmão (ou irmã) pra minha mãe; e o destino de ser filha única e não ter de dividir o computador do meu pai com mais ninguém parecia muito bom, obrigada.
Então você nasceu.
Não foi da minha mãe, como eu tinha cansado de pedir - foi da sua mãe, outra mulher, em outro país. Você era meu irmão-por-parte-de-pai, meu meio-irmão, - ainda que as pessoas me dissessem que isso não existia - uma enxurrada de malinhas e mantinhas azuis que chegou pra roubar ocupar espaço na casa onde eu tinha (até então) reinado sozinha. São nove anos entre nós, mas só conheci você às vésperas do meu décimo-primeiro aniversário, às vésperas do pior ano da minha vida escolar. É óbvio que eu enxergaria você como um intruso.
Talvez eu devesse pedir desculpas por isso. Talvez não (você faria o mesmo, eu sei).
Você era um bebê loirinho que se tornou o xodó das minhas amigas, que carregava pra todo lado uma bola do Palmeiras e pouco depois se tornou obcecado pelo Homem-Aranha, e depois vieram os anos em que fui estudar fora; e quando voltei, você tinha 12 anos e gostava dos Transformers. Acompanhei a mudança dos seus gostos pra heróis da Marvel e quadrinhos, sua mudança de escola e todas as outras coisas que fizeram de você um adolescente no auge dessa fase terrível.
A verdade é que mesmo às vésperas de fazer dezesseis, você não é terrível - não pra mim, pelo menos.
O acaso fez com que nós dois compartilhássemos um mesmo ramo da árvore da vida, mesmo sem termos dividido teto por um único dia sequer - e isso faz com que você seja a única pessoa no mundo além de mim que é capaz de entender certas coisas sem que eu sequer precise esboçar uma explicação. Fico surpresa como nossa forma de lidar com as frustrações é idêntica, e como você também carrega as mesmas inseguranças que eu tinha na sua idade (e que na sua idade eu também jurava que jamais iriam te afligir). Passei a maior parte da minha adolescência sendo atormentada por uma raiva inexplicável e inominável de tudo, algo que ninguém jamais entendeu e me fez ser vista como a menina esquisita por um longo tempo. Ver você passando pela mesma coisa é algo que me deixa ao mesmo tempo feliz por não estar sozinha nessa tormenta que volta e meia ainda me abala e triste, porque meu papel como irmã mais velha é sabiamente proteger você de todos os males do Universo, esse maldito. É óbvio que falho nisso porque não tenho a força incrível da Jessica Jones ou o sangue frio do Rorschach - eu sequer tenho a minha vida arranjada, quem dirá a dos outros - ou quiçá uma fórmula mágica que possa decifrar tudo o que você não consegue me dizer. É lógico que as nossas diferenças tem de aparecer em algum lugar, e elas estão nas escolhas que fazemos ao lidar com as pessoas: você não liga pra ninguém, eu ligo pra todo mundo. Cada um tem de descobrir sua maneira de como pode ser salvo, e enquanto estou aqui, desabafando nesse site e tocando bateria imaginária ao som da nova do The Killers, você deve estar matando gente jogando Battlefield. Paciência.

Eu sei o quanto é estranho não dizer pessoalmente o quanto você significa pra mim e fazer isso por meio de um blog na internet que estranhos podem acessar e ler, mas não escrevo isso aqui pra me expôr ou expôr você - sim, eu sei o quanto essa ideia te aborrece, mas eu escrevo porque sou gente que escreve desde antes de você nascer. Eu escrevo essa carta post babaca porque falar sobre o que eu sinto e penso em forma de texto corrido é a melhor maneira que conheço de me expressar, e por mais que nós dois passemos tardes falando de vídeos bobos, do Ensino Médio e suas dores e da raiva que sentimos do mundo, sei que falamos muito pouco da gente. Do que somos e do que sentimos. Das outras coisas feias e tristes, dos medos e das tristezas, desses sentimentos extremamente vulneráveis que eu sei que você tem tanto quanto eu, mas nenhum de nós parece ter coragem pra abrir a caixa de Pandora enquanto estamos juntos. Nós crescemos longe um do outro e as trivialidades da vida nos escaparam, o que talvez dificulte essa coisa de expôr nossos piores sentimentos - e eu sei que ninguém nunca te ensinou muito bem como fazer isso, mas eu queria usar esse post - que nem sei se você vai chegar a ler, porque eu sei que você gostava de ler esse blog mas a minha vergonha idiota das coisas que penso e escrevo te expulsou daqui - pra comunicar meus sentimentos, numa tentativa meio besta de que eles talvez cheguem até você um dia.
Você e eu temos muito mais em comum do que admitimos ou sabemos, e mesmo sem saber comunicar isso da maneira ideal, isso forja um vínculo entre nós que sei que não poderia ser substituído por mais nenhum. Você também tem ciúme da casa e das tranqueiras da casa da minha nossa avó e cresceu comendo dos mesmos pratos, ouvindo as mesmas histórias e eventualmente tomando banho de banheira, assim como ocupando um lugar na história do nosso clã que de certa forma, também parece bastante com o meu.
Irmão mais novo: as pessoas que não são unidas pelo amor, são unidas pelas tragédias em comum, e o que eu sinto por você tem um pouco dos dois. Nunca usei a palavra amor falando contigo porque também sou uma menina jeca, arisca e noiada demais pra abrir meu coração a torto e a direito, mas você merece saber da sua importância pra mim. De como eu gostaria de fazer com que você se sentisse amado nesse mundão véio e cruel e de oferecer suporte pra que você enfrentasse tudo aquilo que realmente te perturba. Eu gostaria de poder dizer tudo isso de uma maneira melhor, assim como gostaria que você entendesse que pode confiar em mim, mesmo que o mundo diga o contrário sobre as pessoas.
Você me faz entender que família é todo mundo que deixa a nossa longa caminhada pela Terra menos solitária; e se é que em algum momento da história tive a opção de reconhecer você como meu irmão por inteiro ou como irmão nenhum, eu estou feliz com a primeira opção. Obrigada por existir. Obrigada por estar segurando minha mão, metaforicamente, mesmo sem saber, nesses anos todos. Estou aqui pra segurar a sua também.

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  1. Que texto mais lindo, Emi! Sabe que apesar de ser uma carta tão íntima e única senti que de alguma forma ela diz muito sobre a relação que eu tenho com o meu irmão (no caso eu sou a irmã mais nova) e sim apesar de ter passado e passar tantos e tantos anos juntos eu me sinto assim como vc descreveu quanto a demonstrar alguns dos meus sentimentos: arisca e principalmente jeca demais para falar o quanto ele é especial na minha vida ❤

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  3. Obs: eu parei de jogar battlefield em 2015

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