#11: As incríveis aventuras no transporte coletivo

4 comentários
2018 vai se aproximando e com ele, as comemorações de uma década do fim do meu ensino médio, de Digníssimo na minha vida e de amizade com a Vanessa, minha única companheira ficwriter nessa cilada conhecida como vida de fã. Além disso, tem o marco de dez anos completados como cliente fiel do serviço de transporte coletivo metropolitano, entrando e saindo da Roça mais de mil vezes em todo esse tempo. Preciso ser honesta e dizer que eu até dou graças a Deus pela existência desses veículos que me possibilitam a procrastinação infinita do ato de dirigir, a economia de 20 reais de pedágio e a possibilidade de sair da Roça 34 vezes diferentes em dias úteis, mas a gratidão meio que para por aí - afinal de contas, é um trajeto de uma hora e vinte acompanhada de um monte de gente desconhecida nas condições mais inimagináveis. Eu não sei se existe alguma piada que comece com "o sujeito entra no ônibus", mas alguém deveria inventar alguma, dado o alto número de absurdos que acontecem num trajeto qualquer.

GUIA RÁPIDO PRA UTILIZAÇÃO DO TRANSPORTE COLETIVO:

1. Se a pessoa está lendo ou com fones no ouvido, ela quer usar o tempo de viagem dela com algo mais produtivo ao invés de conversar com estranhos;
2. Porta não é lugar de sentar, mas como isso aqui é o Brasil e damos um jeitinho pra tudo, as portas comportam até 01 (UMA) pessoa sentada no degrau. Duas pessoas atravancam a saída de gente do veículo, e tudo o que a gente mais quer é que as pessoas saiam de dentro do veículo o mais rápido possível; então por favor não seja um idiota e não sente na porta;
3. Pelo amor da VIRGEM: Se você viu o ônibus se aproximando, deixe o seu bilhete/cartão/dinheiro da passagem em mãos pra agilizar pra todo mundo. Todo mundo tem pressa, todo mundo quer chegar mais cedo em casa, todo mundo não vê a hora do motorista dar a partida; então fazfavor aí;
4. Se você está sentado num banco preferencial e não é passageiro preferencial, dê o bendito lugar quando entra um passageiro preferencial no ônibus e poupe o cobrador de ficar gritando A MULHER COM CRIANÇA NO COLO, ALGUÉM POR FAVOR CEDA O LUGAR;
5. Não grite, nós somos todos civilizados. As únicas exceções à regra: a porta não abriu ou o motorista fechou a porta em cima de alguém. Aí tá liberado;
6. Respeite o espaço pessoal dos outros ocupantes: você não precisa abrir as pernas de forma a ocupar dois bancos de uma só vez ou pôr sua mão bem do ladinho da mão da outra pessoa segurando nos apoios sendo que existem vários outros lugares disponíveis;
7. Você automaticamente ganha o título de idiota se estiver guardando lugar. A única circunstância em que você pode guardar lugar é caso você seja o DONO da porcaria da companhia de ônibus. Idiota.
As viagens seriam muito mais tranquilas caso eu estivesse no comando.
Tenho um pet peeve imenso com pessoas que não abrem as janelas. AH, MAS ENTRA VENTO E ESTRAGA MEU CABELO - graças a DEUS, eu digo. Nada me deixa mais feliz do que sentar do lado duma janelinha bem aberta e sentir o vento bagunçando o cabelo e trazendo o FRESCOR que só um veículo a 90km/h numa rodovia duplicada pode trazer pros seus ocupantes. As pessoas, elas se preocupam mais com cabelo do que com suar igual um porco. E no frio? MAS MEU DEUS, TÁ FRIO. Eu tenho pavor real de imaginar todas aquelas pessoas com vírus da gripe diferentes presas durante uma hora no mesmo espaço. Essa é a realidade de confinar setenta pessoas numa área de meio metro quadrado pra cada uma - cada uma delas quer fazer o que bem entende ali, e boa parte delas, ao invés de se confinar na tela do celular, prefere disseminar o caos e a maldade importunando os outros. Repito: tem gente que guarda LUGAR - e acha que tá na razão. Num dia de chuva, entrei e tinham dois assentos sobrando e quando pedi pra uma senhora se podia sentar ali, ela fez que não pois o lugar estava reservado. A burra aqui foi sentar no outro banco - que adivinhem, só estava vazio porque estava molhado - e assistiu a companhia dela finalmente tomar posse do lugar uns seis pontos depois. Num outro dia, outra passageira resolveu arrumar treta com outra senhora guardando lugar e ela inventou uma mentira dizendo que a dona do lugar já tinha embarcado e descido pra comprar algo, pra depois as duas ficarem falando mal da mocinha que estava com a razão. Sou extremamente contra reclamar gratuitamente de idosos ocupando lugar no ônibus, mas nesses dias senti ÓDIO.
Eu acho engraçado como as pessoas fazem amizades no ônibus. Quando eu fazia estágio, 50% dos meus colegas de sala pegavam o mesmo ônibus pra ter supervisão com os professores nos mesmos horários e lugares que eu, então no dia do meu aniversário, cantaram PARABÉNS. As amizades de ônibus funcionam exatamente do mesmo jeito - as pessoas que pegam aquele mesmo horário e linha todo dia formam uma panelinha de usuários regulares que logo começam a sentir que são gente de casa. São sete da manhã e elas estão gritando, contando com a maior animação o que elas fizeram no final de semana, combinando trazer chapeuzinhos pro aniversário do fulano e arrumando treta.
Eu sempre chego cedo pra pegar meu ônibus e sempre estão ali três moças que chegam ainda mais cedo do que eu. Tem quatro banquinhos do lado do ponto, então as pessoas que chegam antes esperam sentadas e o resto espera de pé, na fila - uma regra não escrita que todo mundo entende; afinal, se você chega, entra na fila e vê que tem alguém ali esperando por algo, essa pessoa claramente está esperando ônibus e esperou por mais tempo que você. A pessoa esperando na frente dela era uma inicialmente nas artes do transporte coletivo e reclamou que a mulher, que saiu dos banquinhos pra entrar na fila, estava cortando fila - aí foram cinco minutos de gritos e barraco usando termos do naipe cachorro e fudido. Infelizmente eu faltei no dia em que aparentemente essa mesma mocinha bateu na cara de outra que furou a fila - ou apanhou, não tenho certeza, mas sei que estava envolvida em mais um barraco da rodoviária.
Eram sete da manhã, meu Deus. Eu não sei como essas pessoas tem disposição pra brigar assim tão cedo.
Também teve o dia que sentei ao lado de um rapaz que estava animadaço em conversar com o cara da minha frente e me pôs a par de toda a história trabalhista dele e como ele tinha um patrão mercenário, até que passamos na frente de um trecho da rodovia que eu sempre jurei não ter nada, até que ele dizer  "é aí que o pessoal vai pra pôr tornozeleira eletrônica. Aí tem o PRESÍDIO. É aí que o filho chora e a mãe não vê." E não apenas descobri que existe um presídio num ponto aparentemente deserto da BR, mas ouvi em detalhes como é que os detentos lidam com estupradores e tudo o que ele já tinha feito por ordem de quem comandava o pessoal. O cara ouvindo a história terminou dizendo "isso devia ser mais divulgado. Não sei como o pessoal ainda estupra criança sabendo disso... tem tanta mulher por aí."
Foi horrível. E quando eu peguei o ônibus de volta o cara estava lá.

Em todos esses anos, desenvolvi algumas habilidades pra poder sobreviver: a principal delas é saber de que lado o sol bate durante a viagem, seguida por identificar os melhores lugares pra me apoiar quando estou em pé. Fones de ouvido são um pré-requisito pra seguir viagem: o dia em que achei que tivesse perdido meu iPod foi o pior dia da minha carreira como passageira. Também descobri que os melhores lugares pra sentar são os mais longe da roleta, onde a probabilidade de chegar uma gestante ou alguém com criança de colo ainda em pé são as menores. Desculpa, gente, mas no ônibus é cada um por si.
(Esse post foi patrocinado pelas reações de Violet Crawley, também conhecida como a melhor personagem da ficção de época.)

4 comentários

  1. Nesses 23 anos andando de ônibus aprendi algumas coisas: sentar no banco alto, assim posso controlar a janela, ou seja, mantê-la sempre aberta e não ceder lugar pra idoso pois se não estão cansados pra dançar, podem muito bem ficar de pé no ônibus. Odeio gente folgada que fica se mexendo no banco quando estou tentando ler, dá vontade de fechar o livro e acertar a pessoa na cabeça.

    ResponderExcluir
  2. No alto dos meus 1/4 de século já passei muita coisa nos transportes públicos e contínuo passando, só para constar, de pessoas degladiando (de verdade) para ver quem ia sentar em um banco livre, até pessoas cantando em coro músicas de gosto duvidoso, fazendo festinhas (tinha até uns salgadinhos no meio) até pessoas que se sentem no direito de ocupar os dois bancos com suas pernonas abertas (pessoas sendo pessoas) não vou dizer que sinto saudades dessa época, mas os acontecimentos eram engraçados, isso sim

    ResponderExcluir
  3. Em primeiro lugar, quando eu ainda blogava mais regularmente eu amava teu blog e fiquei muito feliz de reencontra-lo na blogosfera agora que eu voltei. Em segundo lugar, mano! Você expressou tudo que passo todos os dias hahahaha, parece que eu escrevi esse texto, parecem minhas experiências diárias. Bom demais reler você, Emi! Bjs <3

    ResponderExcluir
  4. AHAHAHAHAHAHA, Manu, eu ri demais enquanto lia! Os gif da Violet combinaram muito.

    Ônibus é uma experiência sem igual, tudo pode acontecer e a gente escuta cada história, né? E o pior é que nunca queremos saber das histórias, mas as pessoas não deixam. E o que mais me irrita é quando a pessoa senta e já pega o celular para ligar para toda a lista de contatos e aí fica conversando a viagem INTEIRA. Sempre aos berros. Fico realmente bolada com isso!

    ResponderExcluir